quarta-feira, 8 de julho de 2020

O que é a Igreja diante do Covid-19?


Corona
Nesses dias de isolamento social forçado tenho buscado refletir sobre as causas que nos levaram a sermos surpreendidos pela pandemia covid-19. Nesse contexto, inevitavelmente estão presentes as discussões a respeito do processo de identificação e divulgação sobre o vírus, que, para muitos, caso tivesse sido mais ágil e transparente, poderia ter amenizado seus efeitos.Apesar de concordar sobre a importância dessa discussão, quero aqui enfatizar a impressão de que vivemos um modelo de sociedade altamente vulnerável a esse tipo de ameaça.

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos em diversas áreas, estamos tendo que lidar com riscos significativos de colapso social devido a negligência e ganância de muitos. Não foi por falta de previsibilidade quanto ao surgimento de um novo vírus ou por falta de recursos que enfrentamos essa realidade tão dura despreparados. Não querendo ser simplista, entendo que chegamos a esse cenário fundamentalmente devido a escolhas gananciosas e egoístas não apenas das grandes lideranças, mas também das populações que representam, que subordinaram seus Estados aos interesses econômicos dos mais poderosos, mesmo que, em grande parte, como reféns da cultura do consumo e desperdício.


Como cristãos, por analogia, podemos também identificar cenário semelhante no âmbito da perspectiva visível e institucional da igreja. Em meio a tantas previsões bíblicas sobre o que está acontecendo nesses dias, será que realmente acreditamos que iria acontecer? Se sim, nossos estilos de vida, envolvendo nossas rotinas e estruturas eclesiásticas, foram preparados para momentos como esse?  Ou será que fomos realmente surpreendidos como qualquer outro tipo de organização social? Estaríamos conformados? A igreja invisível e católica estaria acorrentada e agora dependente da tecnologia ou de nossos espaços de reuniões coletivas para ser testemunha de seu Cabeça e continuar cumprindo sua missão? Nossos treinamentos envolveram capacitação individual e familiar para respondermos a esse momento como Igreja inabalável?

Acredito que as respostas para essas questões não são triviais e envolveriam boas e longas conversas. Apesar disso, pode-se perceber que há uma questão fundamental que permeia todas essas questões: O que é Igreja? Para alguns talvez a resposta esteja na ponta da língua, no entanto, na prática, o que vemos são evidências, a partir das reações individuais e institucionais nesse momento de pandemia, de que a grande maioria se encontra confusa e sem identidade. Afinal de contas, como ser igreja sem as grandes aglomerações em estádios, sem os shows musicais, sem os grandes avanços evangelísticos, sem as nossas reuniões presenciais ou até mesmo virtuais? O que é igreja hoje para aqueles que não têm acesso aos recursos tecnológicos?


Não quero aqui diminuir a importância das ferramentas, métodos e estruturas que utilizamos na organização de nosso convívio comunitário, tão importantes para a nossa saúde emocional e edificação. Apesar disso, entendo que precisamos refletir sobre a nossa capacidade de nos adaptar a cenários onde não teríamos acesso a esses recursos. Nesse sentido, o nível de dependência que temos de nossa maneira de nos organizar pode então revelar uma relação apenas natural com a igreja, podendo envolver inclusive uma idolatria institucional disfarçada, incompatível com um relacionamento orgânico e espiritual com o Corpo de Cristo.


Estudos sobre esse tema vem sendo desenvolvidos desde o primeiro século da vida da igreja cristã, e até hoje envolve importantes discussões teológicas. Realmente não é o objetivo dessa reflexão desbravar o território da eclesiologia em sua profundidade, mas sim apresentar algumas impressões sobre a aparente crise de identidade ressaltada nesse período tão impactante para a humanidade.
Nesse sentido, podemos lembrar que o termo bíblico igreja está associado inicialmente a palavra hebraica ‘qahal’, relacionada no Velho Testamento ao sentido de assembleia ou congregação de Israel. Provavelmente Jesus utiliza esse termo nas passagens de Mateus, tendo sido registrado pelo grego ‘ekklesia’ devido ao público destinatário da mensagem. Estaria então Jesus sinalizando a inauguração de uma nova estrutura religiosa, mesmo que a partir da ressignificação dos elementos do judaísmo e expandindo o acesso também aos gentios? Surgiria então uma nova proposta de templo, rotinas e comportamentos morais que substituiriam a caduca estrutura religiosa, dando origem ao cristianismo?

Acredito que não, mas sim que mais uma vez Jesus estava usando a linguagem figurada para fazer referência a uma realidade espiritual que pode ser melhor entendida através das cartas de seu interlocutor em Mateus 16:18, o apóstolo Pedro. Em II Pedro 2 podemos encontrar o relato sobre a pedra viva que foi rejeitada pelos homens, mas que diante de Deus é eleita e preciosa, Jesus. Por meio dessa Pedra somos convocados: ‘vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo’.

O apóstolo Pedro traz a revelação sobre para onde apontava toda a estrutura religiosa em torno do povo de Israel. Uma nação chamada por Deus e separada para uma aproximação sacerdotal, em torno de um templo físico, tropeçara na pedra de tropeço, mas, mesmo assim continuou sendo alvo do amor divino. No entanto, chegado o momento de abandonar a estrutura organizacional e as funções temporárias e se entregar à mais perfeita construção de Deus, rejeitaram a pedra angular que também os fez tropeçar.

Por outro lado, os que creem na pedra angular, dentre todas as raças, línguas e nações, são: ‘raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade’. O que crer ‘não será confundido’, e a pedra angular, Jesus Cristo, será um tesouro para ele. Vejo que o apóstolo Pedro estava bem esclarecido sobre a pedra referida por Jesus quando disse ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja’, já que ensina sobre uma realidade de edificação espiritual fundamentada em Cristo, e coloca aqueles que creem, incluindo ele mesmo, como parte desse edifício.

Nesse sentido, podemos encontrar em Hebreus 3 uma referência a Jesus Cristo como apóstolo e Sumo Sacerdote da profissão de fé dos seus discípulos, que seriam as casas ou o ambiente sacerdotal em Cristo. Pode-se entender que a morada de Deus, a casa construída pelo arquiteto de tudo, o próprio Deus, envolve essencialmente uma realidade espiritual interior.

Essa realidade é ensinada também pelo apóstolo Paulo em suas cartas, onde os cristãos seriam santuário de Deus e Corpo de Cristo, Sua Igreja. Com isso, percebe-se que há uma realidade interior comum a todos esses termos usados para revelar nossa vinculação à Deus por meio de Cristo, a Sua presença em nós. Deus habita no interior daqueles que são Igreja de Cristo.

Pode-se entender então que a realidade de ser Igreja tem origem no interior e se manifesta ao exterior através das perspectivas individual, familiar, comunitária e social. Ou seja, alguém alcançado pela Graça de Deus, sendo templo e morada do Espírito Santo, é Igreja em qualquer perspectiva. Sei que esse pensamento pode ser confundido com o apregoado por aqueles que desprezam o congregar, no entanto, quando bem entendido, acredito que serve para fortalecer nossas expressões coletivas da Igreja de Cristo.

Sobre a perspectiva individual da manifestação da Igreja, pode-se imaginar o templo interior construído em Cristo como um “lugar” de comunhão com Deus onde podemos nos encontrar espiritualmente como membros de Seu Corpo. Imagine então uma adoração em Espírito e em Verdade, envolvendo a consciência da Presença do Criador, de uma pessoa no Brasil dentro de seu quarto no mesmo momento que outra pessoa também O adora na África dentro de uma prisão. Essas pessoas estão expressando a Igreja, mesmo que separadas fisicamente e a sós, porque são a Igreja. São Igreja porque congregam na Presença de Deus em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo.

O que quero então ressaltar antes de comentar sobre qualquer outra perspectiva da expressão da Igreja é que esse período de pandemia, envolvendo o isolamento social, não tem a mínima capacidade de impactar a Igreja. A verdadeira Igreja continua sua obra aqui na terra em meio às nossas limitações humanas e de mobilidade. A Palavra de Deus continua a ser propagada através de Sua Igreja inabalável que se reúne em Sua Presença.

Adentrando nas expressões coletivas da Igreja, considero a família como o lugar do primeiro nível de manifestação dessa realidade quando há mais de uma nova criatura envolvida. Quando, no mínimo, duas expressões individuais da Igreja estão juntas fisicamente algo diferente acontece certamente. Surge então um contexto propício para a manifestação prática do amor, da generosidade, da justiça e da paz. Esposo e esposa, por exemplo, passam a expressar a relação de íntima unidade de Cristo e Sua Noiva. Filhos obedecem a seus pais, não mais por obrigação, mas porque encontraram referência em Cristo, exemplo de submissão ao Pai. Quando dois ou mais se reúnem na Presença de Deus, em nome de Jesus Cristo, ali se manifesta a Igreja.

Infelizmente muitos dos que frequentavam as igrejas cristãs foram gravemente impactados pelo isolamento forçado decorrente da pandemia do covid-19. Muitos líderes também demonstram muita preocupação com aqueles que simplesmente “desapareceram”, e assim aparentemente buscam ansiosamente o retorno das atividades presenciais. Alguns, desde o início da pandemia, foram bem incisivos nas redes sociais, se envolvendo em embates em nome da defesa da igreja e reivindicando o direito de retomar suas reuniões. Em meio a isso, críticas e piadas envolvendo as estruturas denominacionais, por aparentemente não estarem tendo poder sobre o covid-19, foram publicadas aos montes também nas redes sociais, impactando em cheio muitos cenários da denominada cristandade.


Acredito que, em muitos casos, as preocupações dessas lideranças sejam legitimas e sinceras, no entanto, não confundamos o atendimento de nossas necessidades naturais de convívio social, muitas vezes buscado através do reconhecimento vaidoso dos outros, com a realidade espiritual que independe disso. Novamente, não quero diminuir, por exemplo, a importância do ensino, louvor e evangelismo coletivos, no entanto, surge naturalmente em mim a impressão de que algo trouxe uma dependência institucional e funcional que coloca a realidade espiritual da Igreja em segundo plano, ou até mesmo comprova sua inexistência na vida de muitos. Por outro lado, as críticas daqueles que não têm qualquer envolvimento com a Igreja, mesmo que não baseadas em boas intenções, podem servir como reflexão sobre o testemunho real da igreja institucional.

Diante disso, podemos então nos perguntar: será que nosso desejo de voltar às nossas rotinas eclesiásticas são realmente porque entendemos a importância desse ajuntamento como mais uma expressão daquilo que também vivemos individualmente e familiarmente, ou estamos na verdade querendo voltar aos nossos disfarces e rotas de fuga? Será que a nossa ansiedade em voltar envolve o desejo de estarmos realmente mais perto daqueles com quem devemos partilhar o que temos? Acredito que vivemos um momento de aprendizado em muitas áreas, incluindo sobre o que é ser Igreja. E nessa escola, tenho a impressão de que ser Igreja envolve viver essa realidade espiritual independente de nossas limitações materiais e provisórias. É não criar escapes para os processos que Deus tem para nós, incluindo nossos desafios individuais e familiares, e realmente permanecer continuamente na Casa de Deus.


Dessa forma, desejo sim que estejamos juntos fisicamente muito em breve, e confesso que sou muito edificado por esses momentos. Além disso, estar entre amigos e familiares traz renovo e aumenta nossa sensação de utilidade, promovendo nossa saúde física e emocional. No entanto, peço a Deus que realize tudo o que for preciso em nós durante esse período de afastamento, envolvendo as capacitações necessárias para que os nossos ajuntamentos sirvam como expressão da Igreja, nos preparando para o grande encontro. Que esse retorno seja cheio de harmonia e paz, envolvendo uma consciência que a Igreja nunca deixou de ser aquilo que Jesus falou a seu respeito: “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Que sejamos conhecidos pelo Amor, Unidade e Serviço, e que, como as virgens prudentes de Mateus 25, sejamos encontrados cheios do Espírito Santo, não importa o lugar!

terça-feira, 9 de junho de 2020

Identificando e combatendo o autoengano religioso de olho nas evidências do Amor

Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1, Parte 2 ou Parte 3, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe! 


Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte final



A passagem de João 13 revela que Jesus Cristo, em meio a consciência de que haveria de ser traído e entregue para ser crucificado, amou os seus seguidores até o fim. Nesse cenário, o mestre lava os pés dos seus discípulos convocando-os a imitá-lo em sua postura de esvaziamento e renúncia, em amor. Ato contínuo, após a saída do traidor, Jesus os entrega um novo mandamento no sentido de que amassem uns aos outros como Ele os tinha amado, para fossem reconhecidos como discípulos. 

Em João 17:21-23, ao interceder pelos seus discípulos, Jesus esclarece sobre a importância da evidenciação da unidade dos seus seguidores, já que seria instrumento para que o mundo cresse Nele. Em consequência disso, nota-se que a pregação ordenada na Grande Comissão (Marcos 16), visando levar toda criatura a crer, precisa envolver necessariamente uma mensagem coerente que integra as evidências do amor e da unidade coletivos às palavras proferidas durante a pregação. 

  As evidências ensinadas por Jesus seriam a fundamentação de uma mensagem cristã, e, em alguns casos, a própria mensagem sem palavras. Mesmo diante disso, não precisamos nos esforçar muito para encontrarmos comunidades de fé cristãs que não evidenciam os elementos fundamentais do evangelho de Cristo, no entanto, estão abarrotadas de seguidores. Em muitos casos, as evidências bíblicas fundamentais foram substituídas pelas baseadas no crescimento numérico e econômico, levando muitos a seguirem a retórica de um evangelho deturpado. 

Projetos de amor e generosidade podem ser entendidos como iniciativas para construção de novas realidades na vida daqueles que se encontram em necessidade, envolvendo a promoção do contentamento dos membros da comunidade de fé, pela reflexão e colaboração dentro do ciclo de dar e receber. Diferente do que muitos entendem, esses projetos não seriam ações isoladas e desvencilhadas das demais frentes de trabalho, como o evangelismo ou discipulado, por exemplo, mas se integrariam a essas como pregação, sendo evidências fundamentais de uma comunidade de fé cristã.  

Pode-se concluir que a ausência de ações que buscam combater possíveis vulnerabilidades sociais em contextos de famílias carentes, que fazem parte de uma determinada comunidade de fé, em meio a um contexto de destinação de significativos volumes de recursos para outros tipos de projetos ou para o custeio organizacional, é um forte indício de que essa comunidade apresenta desalinhamento em relação à missão de Deus e que não tem permanecido no amor.  

Muitos tentam justificar realidades como essa alegando que o amor de Deus pode ser manifesto de muitas formas, como através de eventos evangelísticos, retiros, cultos, discipulado, entre outras. Nesse sentido, a manutenção e a expansão das infraestruturas de suporte aos projetos diretamente relacionados a esses assuntos tornam-se prioridades, tendo como justificativa a prioridade da “pregação do evangelho para a salvação das almas”. 

É realmente importante entender que a manifestação do amor de Deus através de uma comunidade de fé é multiforme. É também necessário que consideremos que todas as possíveis formas podem ser maculadas por motivações egoístas e ambiciosas, como exemplifica o apóstolo Paulo em Filipenses 1:17. A troca indevida das evidências básicas do amor, que envolveriam as ações de benevolência manifestas em projetos coletivos ou em ações individuais, pelas baseadas no crescimento numérico de membros, pode levar a um cenário onde a real restauração de vidas, garantida pelo maior interessado na missão de Deus, o próprio Deus, independente da integridade motivacional dos envolvidos, seja associada a estratégias maculadas pela competição e pelo egoísmo. 

Infelizmente esse quadro é muito mais comum do que podemos imaginar, levando a um caminho que conduz ao descrito na passagem de Mateus 7:22-23, onde pessoas que carregariam inclusive alguns sinais extraordinários citados em Marcos 16:17-18 seriam rejeitadas por Jesus Cristo por não terem realizado verdadeiramente a vontade do Pai. É diante desse perigo que podemos também compreender a importância de projetos de amor e generosidade, já que ajudam a materializar a unidade comunitária, essencialmente produzida pelo Espírito Santo, assim como nos confrontar continuamente com nossas tendências individualistas ao nos envolver muitas vezes em tarefas e contextos que não seriam compatíveis com a nossa vontade própria, no entanto, viabilizados pelo amor. 

Por fim, podemos concluir que projetos de amor e generosidade são uma poderosa ferramenta para o alinhamento de uma comunidade de fé à missão de Deus. Integrados ao processo de santificação, que envolve assuntos com a adoração, discipulado, evangelização, etc., além de serem resultados exclusivos do amor, servem como exames periódicos para avaliação de nossa espiritualidade individual e coletiva. Nesse sentido, são fundamentais para a construção de comunidades de fé relevantes para a missão de Deus e, consequentemente, para a promoção da paz e da justiça social. 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Da tirania das coisas ao amor de Deus

Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1 ou a Parte 2, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe! 

Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 3



Tozer (2016, p. 31-40),compartilha a visão de que o pecado transformou as “coisas”, presentes de Deus para o sustento e deleite da humanidade, em fonte potencial de destruição do ser humano. Nesse sentido, com a exclusão de Deus de seu coração, o ser humano passa a ter uma vida descontente, dominada pela tirania das “coisas”, onde o processo de satisfação de suas necessidades se torna desequilibrado e destrutivo. 

O economista Manfred Max-Neef (1991, p. 13-54), em conjunto com outros pesquisadores, desenvolveu uma taxonomia de necessidades humanas a partir da análise do que denomina megacrise mundial. Nesse sentido, parte de uma visão de desenvolvimento sustentável focada no ser humano e na sua harmonia com a natureza, e não mais no modelo econômico tradicional que enfatiza os bens. 

Apesar de inovar em relação ao nível de abstração e detalhes sobre a classificação das necessidades básicas, adotando uma abordagem mais sistêmica e voltada para a integração do indivíduo com a natureza e sociedade, percebe-se que, assim como em Maslow (1943, p. 1-21), há uma linha de pensamento humanista que aparentemente lança sua esperança de equilíbrio desse sistema numa pretensa autonomia da humanidade. 

Não é de hoje esse tipo de reflexão sobre as necessidades humanas. No século IV a. C, o filósofo Epicuro também desenvolveu sua proposta de classificação das necessidades humanas em meio aos ensinos sobre como alcançar uma vida prazerosa e feliz. Para isso, era fundamental a simplificação dessas necessidades, já que, quanto menos necessidade o indivíduo tem, menor a probabilidade de ter alguma delas não suprida, evitando assim o sofrimento. 

Podemos então através dos estudos desses autores entender um pouco mais sobre as complexidades que envolvem a satisfação das necessidades humanas, principalmente quando consideramos também a relação do indivíduo com a natureza e a sociedade. Pode-se notar que essas complexidades têm levado alguns outros autores à inclusão da espiritualidade como elemento fundamental na busca pelo equilíbrio sistêmico que envolve tanto a perspectiva individual como a social. Apesar disso, as espiritualidades geralmente associadas a essas abordagens são as que consideram o espírito humano como elemento autônomo e capaz de se auto equilibrar. 

Dessa forma, podemos explicar o fato de que, mesmo após milênios de reflexões, a humanidade tenha chegado à megacrise identificada por Max-Neef. Koyzis (2014, p. 15-46) analisa ideologias e visões que fundamentam talvez a totalidade de governos e Estados contemporâneos, que se propõem a influenciar e organizar a sociedade no sentido da satisfação das necessidades coletivas e individuais. O autor identifica raízes idólatras em todas as propostas analisadas, corroborando com o entendimento de que não há tendência ao equilíbrio em meio a propostas que excluem Deus do centro dos corações humanos, no sentido do pensamento de Tozer (2016, p. 31-40). 

Por outro lado, muitos consideram o amor como o fundamento para uma sociedade justa e equilibrada. No entanto, assim como no caminho da valorização da espiritualidade humanista, se limitam a considerar apenas o que Lewis (2017, p. 171-172) trata como sendo amores naturais, que temos como semelhança divina, reivindicando para si o lugar de Deus, impedindo uma aproximação por abordagem, ou seja, por imitação, do amor divino, único capaz de promover o equilíbrio do ser. 

Lewis enfatiza ainda que o amor-Dádiva e amor-Necessidade naturais precisam ser equilibrados pelo amor-Dádiva divino, a Caridade, através do qual o ser humano poderá amar sem parcialidade aquilo que não é naturalmente amável, bem como ter clareza quanto a real necessidade que tem de Deus e dos outros. 

Ao refletir sobre o propósito de Deus para com a humanidade, Lee (2010, p. 7-15) ressalta que a intenção divina sempre foi distribuir ou dispensar a Si mesmo, que é amor, para dentro do homem por meio da Trindade. Edwards (2015, p. 128), ao comentar sobre a repercussão prática da Caridade na vida dos cristãos, afirma que o principal elemento do amor é a benevolência. Nesse sentido, considera o ato de fazer o bem como evidência da presença do amor, levando o indivíduo ou uma coletividade a não se limitar apenas às palavras, mas demonstrar esse amor espontaneamente por meio de ações práticas. 

O Pacto de Lausanne (1974), documento elaborado como fruto do Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, Suíça, apesar de não ter sido pioneiro na reflexão sobre a relação entre a evangelização e o envolvimento sócio-político do cristão, certamente influenciou de maneira impar o surgimento de movimentos que passaram a enxergar a integralidade da missão de Deus como mais clareza, contribuindo para o combate da dicotomia existente entre as obras e a graça. Apesar disso, muitos desses movimentos contribuíram também para o surgimento de cenários confusos e conflituosos, inclusive envolvendo momentos de significativos embates entre cristãos, por aparentemente terem se envolvido demasiadamente em discussões ideológicas e políticas, perdendo assim o foco e inviabilizando sua relevância prática.  

Mesmo diante disso, certamente permanece viva um importante aspecto enfatizado em Lausanne, que aponta para uma mensagem evangélica mais coerente, que se preocupa com a salvação e restauração do ser humano integralmente. Nesse sentido, percebe-se o papel ímpar da igreja no sentido de ser referencial de comunidade em contentamento, devendo materializar, através de suas pregações e ações, um estilo de vida pautado na economia de Deus (LEE, 2010, p. 7-15), sendo assim reproduções dEle.  

Talvez, ao invés de adotar um caminho mais ousado de se envolver organizacionalmente em transformações sociais por meio do sistema político, sem prejuízo à necessária participação individual dos cristãos no Estado e Governo, a igreja precise experimentar uma realidade interna de contentamento e justiça social, para assim, quem sabe, provocar o interesse externo genuíno em conhecer e se entregar ao fundamento dessa desejável realidade, o amor de Deus. 

Referências bibliográficas

EDWARDS, Jonathan. Caridade e seus frutos: um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015. 

KOYZIS, David T. Visões & Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. 

LEE, W. A economia de Deus. Edição para distribuição em massa. CA: USA, 2010. E-Book. ISBN 978-0-7363-3412-9. Disponível em: < http://www.euvosescrevi.com.br/wp-content/uploads/2015/08/EOG-por.pdf >. Acesso em: 20/07/2019. 

LEWIS, C. S. Os quatro amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 

MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, 50: 390-6,1943. 

MAX-NEEF, M. Human Scale Development: conception, application and further reflections. The Apex Press, New York, 1991. 

PACTO DE LAUSANNE, 1974.  Disponível em: <https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/pacto-de-lausanne-pt-br/pacto-de-lausanne>. Acesso em: 04/07/2019. 

PMI INC. Um Guia do Conhecimento de Gerenciamento de Projetos (Guia PMBoK®). 6a Edição ed. Newton Square, PA: 2017a. 

TOZER, A. W. Em busca de Deus: minha alma anseia por ti. São Paulo: Vida, 2016. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Ciclo de amor e contentamento - O milagre do dar e receber


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Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 2


Novo Ciclo – Jornal Semanário"Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês", diz o Senhor, "planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro"

Na mensagem de Jeremias 29:11 encontramos o termo hebraico הַמַּחֲשָׁבֹת (‘machashabah’), geralmente traduzido para o português como pensamento ou ideia. No entanto, ao analisarmos a raiz do termo ‘chashab’ podemos notar que se trata de um significado ainda mais amplo, envolvendo tanto elementos de um processo criativo como a visão, a estratégia, o plano e o projeto, como também aspectos qualitativos que expressam a perfeita capacidade e intenção do autor. Em Jeremias 29 temos um cenário onde o povo de Israel foi transportado como prisioneiros de Jerusalém para a Babilônia, pelo rei Nabucodonosor. Através da mensagem de Jeremias, Deus esclarece que Ele mesmo transportou o povo como parte de Seu ‘machashabah’ (v. 4), orienta sobre alguns projetos que deveriam ser conduzidos pelos cativos (v. 5-8) e informa quando os libertaria (v. 10). Além disso, alerta quanto aos profetas que profetizavam mentiras no nome dEle, assim como em relação aos sonhos falsos, incentivados pelo próprio povo, mas contrários ao Seu propósito (v. 8-9). 

Percebe-se que Deus não tinha a intenção de libertar imediatamente o povo do cativeiro, mas sim de envolvê-los num processo de aprendizado e transformação. Esse processo envolveria a execução de seus projetos de vida na cidade onde eram prisioneiros, contribuindo com a prosperidade daquele local, orando pela paz durante 70 anos. Apesar de ter mantido Sua promessa de libertá-los, Deus demonstra o desejo de levá-los a experimentar um processo onde suas vidas passariam a beneficiar outros, mesmo inimigos, através de ações para promover a prosperidade e orações pela paz. 

No livro de Mateus, capítulo 22, encontramos um cenário que revela mensagens semelhantes às de Jeremias 29. Jesus Cristo estava aparentemente cercado por fariseus e saduceus que tinham a intenção de desacreditá-lo para destruir a Sua credibilidade através de perguntas capciosas. Esses líderes religiosos tinham criado em torno deles um cenário onde deveriam ser considerados como responsáveis pela interpretação e aplicação dos mandamentos, e serem tratados como a própria “voz de Deus”. Assim como o profeta Semaías que tentou calar Jeremias, aqueles homens estavam se levantando contra o próprio Deus. 

Em Mateus 22:34-40 temos a passagem onde os fariseus, após notarem que Jesus tinha emudecido os saduceus, apelam para um questionamento sobre os mandamentos, ou seja, levam o debate para um território onde eram considerados imbatíveis. Sabe-se que os religiosos tinham criado centenas de mandamentos através dos quais manipulavam o povo conforme seus próprios interesses, já que eram os responsáveis pela interpretação sobre o que as pessoas poderiam ou não poderiam fazer. A construção de um sistema religioso corrompido seria consequência da contínua rejeição à “voz profética de Jeremias”, agora se repetindo através da vida de Jesus. 

A resposta de Jesus Cristo foi mais que uma demonstração de conhecimento técnico sobre os mandamentos, mas expressa, assim como em Jeremias 29, o ciclo de amor que a humanidade tem sido chamada a viver a partir da doação do próprio Deus, que é amor. Agora, diferente do povo na época de Jeremias, eles estavam frente a frente com a encarnação perfeita do amor, Jesus Cristo. 

Através da passagem de I João 3:16-18 pode-se entender melhor como somos inseridos nesse ciclo de amor e de como ele deve se manifestar nas nossas ações práticas. Inicialmente o texto lembra que o conhecimento do que é o amor está numa realidade onde Jesus Cristo dá a vida por nós, e de que nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos (v. 16). Sem essa realidade com repercussão prática, onde partilhamos também nossos recursos materiais (v. 17) em consequência do que recebemos dEle, estaremos evidenciando que não conhecemos o verdadeiro amor, e assim nunca teremos nossos corações tranquilizados diante dEle (v. 19). 

Podemos encontrar a relação entre a resposta de Jesus em Mateus 22 e a consequência prática relacionada a destinação dos nossos bens materiais a fim de suprir as necessidades dos outros. Somos alertados a não amarmos uns aos outros e a Deus só de palavra, mas em ação e em verdade. Além disso, informados que a obediência aos mandamentos é evidência de que permanecemos em Cristo e Ele em nós, pelo Espírito Santo (v. 24). 

A passagem de Atos 4:32-37 relata uma característica fundamental do estilo de vida da comunidade dos primeiros cristãos: Não havia entre eles necessitados. Muitos relacionam esse cenário a uma possível igualdade de posses entre as pessoas. No entanto, podemos notar que os recursos doados por aqueles que vendiam suas propriedades eram entregues aos líderes comunitários (v. 34), os apóstolos, a fim de que fossem repartidos conforme a necessidade individual que cada um tinha (v. 35), provavelmente diferentes. 

Podemos imaginar uma comunidade harmônica e justa, livre do sentimento de posse (v. 32), onde aparentemente todos os bens eram considerados públicos e tinham como utilidade o suprimento da comunidade; e essa seria a intenção e desejo de todos, tanto dos que doavam como dos que recebiam. Apesar disso, não vemos indícios de um nivelamento das necessidades individuais (v. 35), assim como que as doações eram realizadas em meio a alguma forma de constrangimento por parte dos líderes, pelo contrário, eram feitas voluntariamente a partir da unidade de coração e alma (v. 32). 

Em Filipenses 4, Paulo se alegra não porque tenha recebido as ofertas do Filipenses, apesar de suas tribulações, mas pelo que seria creditado a eles no que se refere ao dar e receber. O apóstolo tinha decidido por um estilo de vida que não fosse peso para as comunidades que cuidava. Apesar disso, embora tendo dons e talentos naturais destacados, Paulo não criou ao redor de si uma redoma de segurança com base nos recursos que poderia ter acumulado. Aparentemente Paulo optou por um estilo de vida compatível com sua vocação, pronto para dar e receber para, assim, experimentar e promover a entrada de outros no ciclo de contentamento, tendo todas as necessidades supridas de acordo com as suas gloriosas riquezas em Cristo Jesus (Filipense 4:19). 

Deus nos abençoe!