segunda-feira, 18 de maio de 2020

Da tirania das coisas ao amor de Deus

Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1 ou a Parte 2, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe! 

Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 3



Tozer (2016, p. 31-40),compartilha a visão de que o pecado transformou as “coisas”, presentes de Deus para o sustento e deleite da humanidade, em fonte potencial de destruição do ser humano. Nesse sentido, com a exclusão de Deus de seu coração, o ser humano passa a ter uma vida descontente, dominada pela tirania das “coisas”, onde o processo de satisfação de suas necessidades se torna desequilibrado e destrutivo. 

O economista Manfred Max-Neef (1991, p. 13-54), em conjunto com outros pesquisadores, desenvolveu uma taxonomia de necessidades humanas a partir da análise do que denomina megacrise mundial. Nesse sentido, parte de uma visão de desenvolvimento sustentável focada no ser humano e na sua harmonia com a natureza, e não mais no modelo econômico tradicional que enfatiza os bens. 

Apesar de inovar em relação ao nível de abstração e detalhes sobre a classificação das necessidades básicas, adotando uma abordagem mais sistêmica e voltada para a integração do indivíduo com a natureza e sociedade, percebe-se que, assim como em Maslow (1943, p. 1-21), há uma linha de pensamento humanista que aparentemente lança sua esperança de equilíbrio desse sistema numa pretensa autonomia da humanidade. 

Não é de hoje esse tipo de reflexão sobre as necessidades humanas. No século IV a. C, o filósofo Epicuro também desenvolveu sua proposta de classificação das necessidades humanas em meio aos ensinos sobre como alcançar uma vida prazerosa e feliz. Para isso, era fundamental a simplificação dessas necessidades, já que, quanto menos necessidade o indivíduo tem, menor a probabilidade de ter alguma delas não suprida, evitando assim o sofrimento. 

Podemos então através dos estudos desses autores entender um pouco mais sobre as complexidades que envolvem a satisfação das necessidades humanas, principalmente quando consideramos também a relação do indivíduo com a natureza e a sociedade. Pode-se notar que essas complexidades têm levado alguns outros autores à inclusão da espiritualidade como elemento fundamental na busca pelo equilíbrio sistêmico que envolve tanto a perspectiva individual como a social. Apesar disso, as espiritualidades geralmente associadas a essas abordagens são as que consideram o espírito humano como elemento autônomo e capaz de se auto equilibrar. 

Dessa forma, podemos explicar o fato de que, mesmo após milênios de reflexões, a humanidade tenha chegado à megacrise identificada por Max-Neef. Koyzis (2014, p. 15-46) analisa ideologias e visões que fundamentam talvez a totalidade de governos e Estados contemporâneos, que se propõem a influenciar e organizar a sociedade no sentido da satisfação das necessidades coletivas e individuais. O autor identifica raízes idólatras em todas as propostas analisadas, corroborando com o entendimento de que não há tendência ao equilíbrio em meio a propostas que excluem Deus do centro dos corações humanos, no sentido do pensamento de Tozer (2016, p. 31-40). 

Por outro lado, muitos consideram o amor como o fundamento para uma sociedade justa e equilibrada. No entanto, assim como no caminho da valorização da espiritualidade humanista, se limitam a considerar apenas o que Lewis (2017, p. 171-172) trata como sendo amores naturais, que temos como semelhança divina, reivindicando para si o lugar de Deus, impedindo uma aproximação por abordagem, ou seja, por imitação, do amor divino, único capaz de promover o equilíbrio do ser. 

Lewis enfatiza ainda que o amor-Dádiva e amor-Necessidade naturais precisam ser equilibrados pelo amor-Dádiva divino, a Caridade, através do qual o ser humano poderá amar sem parcialidade aquilo que não é naturalmente amável, bem como ter clareza quanto a real necessidade que tem de Deus e dos outros. 

Ao refletir sobre o propósito de Deus para com a humanidade, Lee (2010, p. 7-15) ressalta que a intenção divina sempre foi distribuir ou dispensar a Si mesmo, que é amor, para dentro do homem por meio da Trindade. Edwards (2015, p. 128), ao comentar sobre a repercussão prática da Caridade na vida dos cristãos, afirma que o principal elemento do amor é a benevolência. Nesse sentido, considera o ato de fazer o bem como evidência da presença do amor, levando o indivíduo ou uma coletividade a não se limitar apenas às palavras, mas demonstrar esse amor espontaneamente por meio de ações práticas. 

O Pacto de Lausanne (1974), documento elaborado como fruto do Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, Suíça, apesar de não ter sido pioneiro na reflexão sobre a relação entre a evangelização e o envolvimento sócio-político do cristão, certamente influenciou de maneira impar o surgimento de movimentos que passaram a enxergar a integralidade da missão de Deus como mais clareza, contribuindo para o combate da dicotomia existente entre as obras e a graça. Apesar disso, muitos desses movimentos contribuíram também para o surgimento de cenários confusos e conflituosos, inclusive envolvendo momentos de significativos embates entre cristãos, por aparentemente terem se envolvido demasiadamente em discussões ideológicas e políticas, perdendo assim o foco e inviabilizando sua relevância prática.  

Mesmo diante disso, certamente permanece viva um importante aspecto enfatizado em Lausanne, que aponta para uma mensagem evangélica mais coerente, que se preocupa com a salvação e restauração do ser humano integralmente. Nesse sentido, percebe-se o papel ímpar da igreja no sentido de ser referencial de comunidade em contentamento, devendo materializar, através de suas pregações e ações, um estilo de vida pautado na economia de Deus (LEE, 2010, p. 7-15), sendo assim reproduções dEle.  

Talvez, ao invés de adotar um caminho mais ousado de se envolver organizacionalmente em transformações sociais por meio do sistema político, sem prejuízo à necessária participação individual dos cristãos no Estado e Governo, a igreja precise experimentar uma realidade interna de contentamento e justiça social, para assim, quem sabe, provocar o interesse externo genuíno em conhecer e se entregar ao fundamento dessa desejável realidade, o amor de Deus. 

Referências bibliográficas

EDWARDS, Jonathan. Caridade e seus frutos: um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015. 

KOYZIS, David T. Visões & Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. 

LEE, W. A economia de Deus. Edição para distribuição em massa. CA: USA, 2010. E-Book. ISBN 978-0-7363-3412-9. Disponível em: < http://www.euvosescrevi.com.br/wp-content/uploads/2015/08/EOG-por.pdf >. Acesso em: 20/07/2019. 

LEWIS, C. S. Os quatro amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 

MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, 50: 390-6,1943. 

MAX-NEEF, M. Human Scale Development: conception, application and further reflections. The Apex Press, New York, 1991. 

PACTO DE LAUSANNE, 1974.  Disponível em: <https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/pacto-de-lausanne-pt-br/pacto-de-lausanne>. Acesso em: 04/07/2019. 

PMI INC. Um Guia do Conhecimento de Gerenciamento de Projetos (Guia PMBoK®). 6a Edição ed. Newton Square, PA: 2017a. 

TOZER, A. W. Em busca de Deus: minha alma anseia por ti. São Paulo: Vida, 2016. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Ciclo de amor e contentamento - O milagre do dar e receber


Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1, pode acessar através desse link. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe!


Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 2


Novo Ciclo – Jornal Semanário"Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês", diz o Senhor, "planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro"

Na mensagem de Jeremias 29:11 encontramos o termo hebraico הַמַּחֲשָׁבֹת (‘machashabah’), geralmente traduzido para o português como pensamento ou ideia. No entanto, ao analisarmos a raiz do termo ‘chashab’ podemos notar que se trata de um significado ainda mais amplo, envolvendo tanto elementos de um processo criativo como a visão, a estratégia, o plano e o projeto, como também aspectos qualitativos que expressam a perfeita capacidade e intenção do autor. Em Jeremias 29 temos um cenário onde o povo de Israel foi transportado como prisioneiros de Jerusalém para a Babilônia, pelo rei Nabucodonosor. Através da mensagem de Jeremias, Deus esclarece que Ele mesmo transportou o povo como parte de Seu ‘machashabah’ (v. 4), orienta sobre alguns projetos que deveriam ser conduzidos pelos cativos (v. 5-8) e informa quando os libertaria (v. 10). Além disso, alerta quanto aos profetas que profetizavam mentiras no nome dEle, assim como em relação aos sonhos falsos, incentivados pelo próprio povo, mas contrários ao Seu propósito (v. 8-9). 

Percebe-se que Deus não tinha a intenção de libertar imediatamente o povo do cativeiro, mas sim de envolvê-los num processo de aprendizado e transformação. Esse processo envolveria a execução de seus projetos de vida na cidade onde eram prisioneiros, contribuindo com a prosperidade daquele local, orando pela paz durante 70 anos. Apesar de ter mantido Sua promessa de libertá-los, Deus demonstra o desejo de levá-los a experimentar um processo onde suas vidas passariam a beneficiar outros, mesmo inimigos, através de ações para promover a prosperidade e orações pela paz. 

No livro de Mateus, capítulo 22, encontramos um cenário que revela mensagens semelhantes às de Jeremias 29. Jesus Cristo estava aparentemente cercado por fariseus e saduceus que tinham a intenção de desacreditá-lo para destruir a Sua credibilidade através de perguntas capciosas. Esses líderes religiosos tinham criado em torno deles um cenário onde deveriam ser considerados como responsáveis pela interpretação e aplicação dos mandamentos, e serem tratados como a própria “voz de Deus”. Assim como o profeta Semaías que tentou calar Jeremias, aqueles homens estavam se levantando contra o próprio Deus. 

Em Mateus 22:34-40 temos a passagem onde os fariseus, após notarem que Jesus tinha emudecido os saduceus, apelam para um questionamento sobre os mandamentos, ou seja, levam o debate para um território onde eram considerados imbatíveis. Sabe-se que os religiosos tinham criado centenas de mandamentos através dos quais manipulavam o povo conforme seus próprios interesses, já que eram os responsáveis pela interpretação sobre o que as pessoas poderiam ou não poderiam fazer. A construção de um sistema religioso corrompido seria consequência da contínua rejeição à “voz profética de Jeremias”, agora se repetindo através da vida de Jesus. 

A resposta de Jesus Cristo foi mais que uma demonstração de conhecimento técnico sobre os mandamentos, mas expressa, assim como em Jeremias 29, o ciclo de amor que a humanidade tem sido chamada a viver a partir da doação do próprio Deus, que é amor. Agora, diferente do povo na época de Jeremias, eles estavam frente a frente com a encarnação perfeita do amor, Jesus Cristo. 

Através da passagem de I João 3:16-18 pode-se entender melhor como somos inseridos nesse ciclo de amor e de como ele deve se manifestar nas nossas ações práticas. Inicialmente o texto lembra que o conhecimento do que é o amor está numa realidade onde Jesus Cristo dá a vida por nós, e de que nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos (v. 16). Sem essa realidade com repercussão prática, onde partilhamos também nossos recursos materiais (v. 17) em consequência do que recebemos dEle, estaremos evidenciando que não conhecemos o verdadeiro amor, e assim nunca teremos nossos corações tranquilizados diante dEle (v. 19). 

Podemos encontrar a relação entre a resposta de Jesus em Mateus 22 e a consequência prática relacionada a destinação dos nossos bens materiais a fim de suprir as necessidades dos outros. Somos alertados a não amarmos uns aos outros e a Deus só de palavra, mas em ação e em verdade. Além disso, informados que a obediência aos mandamentos é evidência de que permanecemos em Cristo e Ele em nós, pelo Espírito Santo (v. 24). 

A passagem de Atos 4:32-37 relata uma característica fundamental do estilo de vida da comunidade dos primeiros cristãos: Não havia entre eles necessitados. Muitos relacionam esse cenário a uma possível igualdade de posses entre as pessoas. No entanto, podemos notar que os recursos doados por aqueles que vendiam suas propriedades eram entregues aos líderes comunitários (v. 34), os apóstolos, a fim de que fossem repartidos conforme a necessidade individual que cada um tinha (v. 35), provavelmente diferentes. 

Podemos imaginar uma comunidade harmônica e justa, livre do sentimento de posse (v. 32), onde aparentemente todos os bens eram considerados públicos e tinham como utilidade o suprimento da comunidade; e essa seria a intenção e desejo de todos, tanto dos que doavam como dos que recebiam. Apesar disso, não vemos indícios de um nivelamento das necessidades individuais (v. 35), assim como que as doações eram realizadas em meio a alguma forma de constrangimento por parte dos líderes, pelo contrário, eram feitas voluntariamente a partir da unidade de coração e alma (v. 32). 

Em Filipenses 4, Paulo se alegra não porque tenha recebido as ofertas do Filipenses, apesar de suas tribulações, mas pelo que seria creditado a eles no que se refere ao dar e receber. O apóstolo tinha decidido por um estilo de vida que não fosse peso para as comunidades que cuidava. Apesar disso, embora tendo dons e talentos naturais destacados, Paulo não criou ao redor de si uma redoma de segurança com base nos recursos que poderia ter acumulado. Aparentemente Paulo optou por um estilo de vida compatível com sua vocação, pronto para dar e receber para, assim, experimentar e promover a entrada de outros no ciclo de contentamento, tendo todas as necessidades supridas de acordo com as suas gloriosas riquezas em Cristo Jesus (Filipense 4:19). 

Deus nos abençoe!