Na minha limitada opinião, o objetivo do escotismo é formar bons cidadãos, para assim ajudar no desenvolvimento de um mundo melhor. Através do ensino e exemplo, os alunos são estimulados a passar pelas etapas (algo como as “patentes”), onde trabalham aspectos como fraternidade, valores, comunidade e comunicação. Com muito contato com a natureza, os escoteiros são ensinados quanto ao serviço, disciplina, lealdade, religião, etc.
Vejo que o escotismo tem uma missão nobre, no entanto, na prática, podemos identificar alguns pontos que podem limitar a efetividade da metodologia desenvolvida por seu idealizador. O primeiro deles está relacionado à motivação inicial do aluno. Acredito que, inicialmente, o que mais atrai a maioria dos jovens ao escotismo é a busca por diversão e reconhecimento. Realmente as programações são muito atrativas, e a conquista de “patentes”, mediante o aprendizado, naturalmente atrai a admiração do grupo. Sendo assim, podemos facilmente notar que nem todos os que vestem o uniforme de escoteiro estão conscientemente participando do processo de formação de bons cidadãos. Nem todos os alunos são obrigatoriamente seguidores. Muitas vezes estão aprendendo algumas coisas para continuarem se divertindo e sendo reconhecidos, mas não obrigatoriamente sendo transformados, conforme o objetivo do programa.
A princípio, concordo que a falta de comprometimento dos alunos com a missão do movimento não necessariamente está relacionada a uma falha na metodologia. No entanto, a possibilidade de jovens chegarem a “patentes” que os possibilitem guiar outros, sem que de fator tenham sido transformados em bons cidadãos, pode vim a deturpar inclusive o objetivo do escotismo. Esses "falsos discípulos", embora com vestes de escoteiro, passam a ensinar baseados em seus interesses e preferências, podendo inclusive prejudicar a imagem do movimento.
A menos que tenha ocorrido um erro de tradução, o ensino desalinhado é um risco que aparentemente Baden-Powell, no mínimo, não considerou relevante, já que orienta os guias de patrulha da seguinte forma: "Quero que vocês, guias de patrulha, entrem em ação e adestrem suas Patrulhas inteiramente sozinhos e ao seu jeito porque, para vocês, é perfeitamente possível pegar cada rapaz da Patrulha e fazer dele um bom camarada, um verdadeiro Homem”. Dessa forma, aparentemente ele considerou que o processo de formação definido garante a geração de verdadeiros escoteiros.
Para diminuir os riscos, o ideal talvez seria que o Escoteiro-mor, o fundador do escotismo, estivesse presente para "arrumar a casa". Sendo assim, suas idéias originais poderiam ser esclarecidas e reafirmadas, e, como ele próprio enfatizou, seu exemplo ajudaria a manter integro o propósito original. Mesmo que alguns não concordem totalmente com tal necessidade, sabemos que a presença do “dono do negócio” é essencial para o sucesso do empreendimento. É claro que isso é impossível, já que Baden-Powell faleceu em 1941. Além disso, mesmo que ele estivesse vivo, é muito provável não fosse capaz de viver plenamente o que pregava. Isso sem levar em consideração o fato de seus ensinos não serem suficientes para o alcance do objetivo desejado, ou seja, formar bons cidadãos. Tais fatos nos ajudam também a perceber como o ser humano é limitado, já que geralmente tende a criar teorias, até com boas intenções, mas não consegue vivê-las plenamente.
Diferente do idealizador do escotismo, Cristo não veio trazer uma metodologia para a formação de bons cidadãos, mas sim dar o exemplo de Filho, dar Sua própria Vida para que outros Filhos fossem gerados. Resumidamente, creio que o objetivo do cristianismo é transformar seres humanos em Filhos de Deus, Discípulos de Cristo, Cidadãos do Reino. Isso tem ligação com a diferença fundamental entre o discipulado de Cristo e qualquer outro discipulado. O de Cristo é o único onde o objetivo é totalmente coerente com a vida do mestre.
Como ocorre com os escoteiros, algumas pessoas podem se envolver com o cristianismo, “vestir uniforme de cristão”, mas de fato apenas estarem buscando seus próprios interesses. Essas não entraram pela Porta, que envolve uma decisão relacionada ao objetivo real do cristianismo, no entanto, possivelmente estarão envolvidos no contexto cristão, até mesmo praticando “ações cristãs”, mas só para satisfazer seus interesses. Ser Discípulo de Cristo envolve muito mais do que conhecer sobre sua história e ensinamentos. O conhecimento humano não garante a transformação, já que somos naturalmente levados a interpretar da forma que nos convém, bem como a praticar só o que nos interessa. Precisamos, antes de qualquer coisa, nos entregar ao arrependimento, renúncia e dependência do Mestre .
Na sua carta aos guias de patrulhas, Baden-Powell expressa que seria perfeitamente possível um guia formar um bom cidadão ao seu jeito e de forma isolada. Talvez para um objetivo que possa ser relativizado, e que é imperfeito, a idéia seja aceitável. No entanto, para um objetivo perfeito, onde os “guias” estejam também em processo de formação, ou seja, ainda são imperfeitos, ressalta-se a necessidade da presença e atuação direta do Mestre.
Cristo não enviou seus discípulos a fazer discípulos da forma que acharem melhor e de forma isolada. Se assim fosse, acredito que teríamos uma missão impossível. Na verdade, o “Ide” também envolveu a promessa de Sua companhia. Um propósito tão perfeito não seria possível sem a presença dEle. Ele vive e habita entre nós! Cristo discípula através de seus discípulos, através de Seu Corpo, de onde brota Sua multiforme sabedoria. Sendo assim, precisamos a todo o momento lembrar que o único capaz de gerar discípulos conforme o Seu propósito é Cristo. Não temos como isoladamente discipular, mesmo cheios de conhecimento e experiências, pelo contrário, precisamos depender do Corpo, da Igreja, dEle mesmo.
Quando não damos a devida importância à participação do Corpo no processo de formação de discípulos, estamos desprezando o próprio Mestre. Estaremos fazendo “discípulos” para satisfazer nossos interesses, provavelmente buscando mais uma “patente”. Por outro lado, estaremos também desprezando a importância de sermos edificados pelo Corpo, e não isoladamente por alguns dos seus membros, muitas vezes com quem temos mais afinidade natural. Depender do Corpo é uma proteção para nós!
No final de sua carta aos guias de patrulha, Baden-Powell deu a seguinte orientação: “Mas, lembrem-se que vocês devem guiá-los, e não empurrá-los”. Isso me chamou muito a atenção devido às diferenças fundamentais das duas abordagens. Muitas vezes queremos “empurrar de goela abaixo” as nossas convicções quanto ao Reino de Deus. Queremos que as pessoas nos obedeçam, sejam como nós somos. Na verdade, acredito que precisamos caminhar em unidade com Cristo, e assim seremos seguidos. Estaremos de fato guiando, e assim fazendo discípulos dEle.
Deus nos abençoe!