Meditar sobre o novo de Deus talvez
seja uma das importantes tarefas diante das intensas mudanças que temos vivenciado
nas últimas décadas em nossa sociedade. A importância dessa tarefa aumenta
diante também do expressivo aumento da velocidade do avanço tecnológico e
mudança de mentalidade, trazendo um apelo quase irresistível ao novo
descartável, ao novo que se mantem novo durante cada vez menos tempo.
A singularidade desse cenário
pode ser percebida ao analisarmos algumas constatações, como a de que uma
criança de 7 anos hoje tem acesso a mais informação do que um imperador romano.
Ou a de que um determinado smartphone tem mais capacidade de processamento e
armazenamento do que o computador da Apollo 11, que levou o homem à lua há
aproximadamente 50 anos. Não é minha intenção demonstrar as particularidades do
que alguns chamam de era da informação ou da quarta revolução industrial e seus
impactos sociais, mas apenas ressaltar que vivemos dias em que estamos
constantemente e velozmente tendo que se adaptar ao novo.
Aparentemente a frequência da
“onda da inovação” aumentou como jamais tínhamos visto, e assim a sociedade vem
passando por uma série de adaptações promovidas pela denominada revolução tecnológica,
que vem transformando nossos relacionamentos pessoais, nossas relações de
trabalho, nossa economia e governo. A meu ver, os dois principais “remos” que produzem
as ondas de inovação tecnológica, o militarismo e o mercado, ganharam um potente
motor com a chegada da internet, e assim estamos mergulhados nas redes sociais
e no mar do big data.
Nesse cenário, pode-se concordar que
essa nova realidade trouxe muitos benefícios para o nosso dia a dia. Hoje
podemos comprar sem sair de casa, encontrar velhos amigos nas redes sociais, ter
maior transparência e acesso a informações, trabalhar remotamente, etc. Apesar disso, coincidência ou não, enfrentamos
a doença do século, a depressão, os vícios oriundos do ambiente virtual, o consumismo
e o desperdício aparentemente desenfreados.
Concordo que seria talvez injusto
colocar apenas na conta da inovação tecnológica todas essas mazelas, mas quero
aqui trazer como reflexão o fato de que nos tornamos, como sociedade, reféns de
um fenômeno que transformou o mercado e a nossa mentalidade no sentido de descartarmos
o mais rápido possível o velho em busca do novo, num caminho perigoso de
insatisfação e tédio. Essa nova mentalidade, que continua em desenvolvimento,
está carregada de uma busca por ressignificar a realidade a partir da teoria que
melhor satisfaz o indivíduo, e onde há uma satisfação na desvalorização do
legado, na destruição e construção em nome da autenticidade e criatividade.
Diante disso, qual tem sido o impacto
dessa realidade na igreja? Afinal de contas somos todos parte dessa sociedade em
contínua transformação. Estamos lidando bem com a inovação tecnológica e
cultural? Estamos conseguindo reter o que é bom e combater aquilo que atrapalha
o processo de santificação daqueles que fazem parte da comunidade de fé? Estamos
lidando bem com o novo de Deus ou apenas nos conformando ao novo normal?
Antes da pandemia ouvi muito
líderes falarem fervorosamente do novo de Deus, inclusive convocando o povo a
uma nova abordagem de evangelismo e estilo de vida. Afinal de contas tinha
chegado a hora da nova geração assumir as rédeas da igreja com novos estilos musicais,
nova linguagem, novos perfis de pregadores, novas técnicas de comunicação e
motivação, nova ênfase na transformação social, etc. Muitos locais de reunião foram
criados ou remodelados para atender as expectativas dessa nova geração sedenta
pelo novo. Afinal de contas a igreja não estava dando certo e precisava se
tornar mais relevante para a sociedade.
Esses dias ouvi um jovem líder de
uma igreja cristã fazer uma veemente defesa do que chamou de novo de Deus. Sua
pregação foi baseada na passagem de Isaias 43 e me chamou a atenção pelos
exemplos que deu ao falar sobre o que deveríamos deixar para trás, assim como a
ênfase no esquecimento inclusive das coisas boas que Deus tinha feito no
passado. Num primeiro exemplo ele faz uma pequena brincadeira com o termo
“mocidade”, usado por algumas comunidades para se referir ao grupo de jovens,
dando a entender que seria algo a ser esquecido por não fazer parte do novo. Também
falou um pouco da nova “cara” da igreja evangélica, que agora deixou de ser
conhecida como a igreja das mulheres, de ignorantes e de pessoas feias, e se tornou
de pessoas mais bonitas, inteligentes e influentes. Nesse sentido, a partir de
uma leitura da nova realidade da igreja evangélica, mais numerosa e influente,
deveríamos considerar isso como parte do novo de Deus.
Com todo respeito a esse jovem
líder, penso que houve uma grande confusão sobre o que é o novo de Deus. Na
passagem de Isaias 43 pode-se encontrar uma profecia a respeito do povo
escolhido por Deus. Entendo que envolve tanto uma promessa relacionada ao
livramento da Babilônia (novo êxodo) como também ao próprio Messias. Após
ressaltar o controle de Deus sobre o que acontecia desde a antiguidade, o povo
é orientado a esquecer as coisas passadas pois Deus iria fazer algo novo.
Se atentarmos um pouco ao
contexto podemos claramente perceber que o chamado ao esquecimento não estava relacionado,
por exemplo, a práticas e mandamentos ensinados no passado, nem tão pouco a uma
cultura ultrapassada que levava o povo a não ser respeitado pelas outras
nações, mas sim a um cenário passado que não deu certo devido ao pecado. Imagine
um pai falando para um filho dependente químico que voltou a usar drogas: “Meu
filho te amo tanto. És muito especial para mim. Vou seguir até o fim para te
tirar dessa vida. Apesar de tudo que já fiz de bom por você, toda ajuda nos
momentos de crise, todas as noites em que te resgatei nas ruas, mesmo assim
você retornou a essa vida. Mas faça o seguinte: Esqueça o passado, vou fazer
tudo de novo”.
A meu ver, é nesse sentido que
Deus orienta o povo. Isso fica mais evidente quando lemos todo o capítulo, onde
é relatada a infidelidade do povo em meio a tudo o que Deus fez, inclusive deixando
claro que Israel tinha se cansado de Deus. Tinham se cansado dos mandamentos de
Deus e passaram a fazer de uma nova forma, talvez mais prazerosa sob o ponto de
vista humano. Lembro também que na pregação do jovem líder que comentei
anteriormente continha uma critica a monotonia dos modelos de igreja do passado,
alertando sobre a necessidade de a igreja buscar novas maneiras de combater o
tédio das pessoas através, por exemplo, de uma proposta com mais adrenalina e
aventura.
Sem querer fechar os olhos para
os problemas históricos da igreja, pode-se notar claramente que a nova
mentalidade social está bem presente em grande parte das comunidades cristãs
como a desse jovem líder. Poderíamos comentar vários aspectos dessa realidade,
mas aqui gostaria de focar em algo que, a meu ver, envolve a mais perigosa
consequência dessa onda de inovação, a idolatria.
Algo parecido com o cenário
relatado por Isaias ocorreu durante o período em que o povo de Israel acampou
junto ao monte Sinai após a libertação da escravidão do Egito. Durante a subida
e permanência de Moisés no monte durante 40 dias e noites, o povo se cansa de
esperar e pressiona Arão para que construa um bezerro para ir à frente da
marcha rumo a terra prometida. É interessante que, após a construção do bezerro
com as joias que tinham trazido do Egito, o povo parece que ganha ânimo para
levantar bem cedo, cultuar o que chamaram de yahweh e festejar.
Mas o que levaria o povo a tão
rapidamente caírem na idolatria, mesmo depois de ver tantos milagres e manifestações
de Deus? Muitos hoje dariam tudo para ver o que eles viram, não é mesmo?
Procuram os sinais de Deus para crerem. Acredito essa queda revela o verdadeiro
desejo daquele povo, ou seja, a conquista da terra prometida. Enquanto Deus
construía o caminho para que o povo se aproximasse dEle em santidade,
descobrindo que a Sua presença é a maior riqueza que poderiam receber, estava
na verdade interessados exclusivamente na promessa. Além disso, penso que, diante
talvez da oportunidade de criar algo novo para substituir o que não conseguiam mais
controlar ou prever, talvez algo para eles que não tivesse uma forma muito
atrativa ou confortável, o povo rapidamente utiliza suas capacidades e recursos
para fazer algo mais agradável e prazeroso.
Considerando isso, pode-se
perceber que uma das tentações no coração humano ao se deparar com a iminência
do novo de Deus é criar um novo deus que atenda as expectativas da promessa de
forma mais cômoda e festiva. De forma covarde, sabendo que isso pode nos “incriminar”,
nos enganamos chamando o novo ídolo de yahweh, para camuflar nosso desejo mais prioritário.
Realmente isso permanece acontecendo no coração do ser humano que de alguma
forma se aproxima de Deus sem a intenção genuína de mudança para comunhão com Ele,
mas sim para ter acesso as Suas promessas.
Mas o que mudou nos nossos dias
em relação a essa realidade? Penso que nos tornamos mais impacientes de forma
geral devido ao cenário dos nossos dias anteriormente relatado. Somos
estimulados a todo momento a inovarmos de forma disruptiva e autêntica e a estarmos
abertos a nova dinâmica social. Nossas mentes não param mais de produzir e
pensar em como criar algo novo que nos traga reconhecimento e retorno
financeiro. Falo não apenas na construção de novos produtos e serviços, mas
também de novas formas de influenciar nossos seguidores para que sirvam aos
nossos interesses pessoais. Todos querem criar algo que possa chamar de minha
criação.
E no meio da igreja cristã? Será
que estamos vencendo a tentação de criamos nosso bezerro de ouro interior?
Estamos conseguindo esperar o novo de Deus por termos o interesse genuíno e
prioritário de nos aproximar dEle para conhecê-lo ou cansamos de esperar e
partimos para a conquista do prometido com as nossas construções? Não quero
aqui desvalorizar as direções e promessas feitas por Deus a seus filhos com
repercussões ainda aqui nesse mundo, mas será que nossas estratégias cheias de
técnicas inovadoras e marketing não podem estar ocupando um lugar indevido?
Penso que talvez as pessoas que
se aproximam das comunidades de fé estejam “embriagadas” com todo esse cenário
de agitação. Estão como anestesiadas e sem força para lidar com toda essa
pressão, sem tempo sequer para refletir sobre suas reais motivações a fim de andar
em sobriedade. Tenho a impressão então que
toda a abordagem que nos leva a uma motivação para a conquista, mesmo que de
algo direcionado por Deus, com base nas nossas preferências e desejos naturais,
moldados inclusive pela nossa cultura, mas que não enfatizem o arrependimento e
santificação, são fortes candidatos a carregarem um ídolo e nos levarem a um
estado de engano rumo a ira de Deus.
Não quero aqui trazer à tona a
velha discussão que envolve tradicionais versus renovados, jovens versus
velhos, ou algo do tipo. Também não quero desconsiderar o valor da inovação e
pensamento criativo equilibrado. O que trago é a reflexão sobre o lugar que
essas ferramentas têm ocupado e influenciado a vida individual e comunitária
como cristãos. Alguns até tentam justificar algumas escolhas na afirmação do
apóstolo Paulo quando diz “fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos” na sua
primeira carta aos Coríntios, capítulo 9 , no entanto, é importante diferenciar
uma ação temporária e claramente estratégica de uma adaptação do estilo de
vida.
A meu ver, ao falar do seu estilo
de vida em relação à pregação do Evangelho, Paulo enfatiza que, “a fim de
ganhar o maior número possível”, se fez servo de todos e, temporariamente,
adaptava sua estratégia de pregação aos que tinham ou não a Lei, mesmo
permanecendo sob a lei de Cristo. Noto que, diferente do que ocorre hoje, Paulo
não se deleitava no estilo de vida daqueles que não andavam na lei de Cristo,
mas convivia com essa realidade se esvaziando a fim de participar do Evangelho,
envolvendo a redução de seu corpo (desejos, preferências, etc.) à servidão para
que não fosse reprovado.
Ao compararmos o comportamento do
apóstolo Paulo com alguns cenários de atuação de alguns dos evangelistas que,
em nome do “ganhar multidões”, adaptam os seus estilos de vida aos daqueles que
são alvo de suas pregações, mas aparentemente se deleitando em seus novos
estilos, comportamentos e posições sociais. Sei que é delicado afirmar algo em
relação a casos concretos, e não me proponho a isso, mas gostaria sim de
provocar uma reflexão sobre se realmente temos vivido a abordagem de Paulo ou
se temos encontrado nisso uma forma de nos embriagar com os nossos reais
desejos ao mesmo tempo que adoramos a um novo deus.
Talvez muitos não estejam
preocupados com essa realidade interior e, movidos pela força e beleza da
juventude e domínio tecnológico, estejam cada vez mais confiantes e insistentes.
Veja que essa frase anterior demonstra o grande desafio de esclarecimento sobre
esse tema, já que envolve termos importantes e que podem estar presentes onde
realmente o novo de Deus esteja verdadeiramente presente. A juventude e beleza,
a ciência, a confiança e a perseverança são realmente coisas boas e desejáveis,
sendo inclusive originadas em Deus. No entanto, quando desprovidas do Espírito
de Deus, podem ser insumos para a construção de um ídolo interior que nos conduzirá
a destruição.
Dessa forma, sem querer de alguma
forma deixar a impressão de que teria objetivamente como julgar nossas
estratégias ou ações em resposta ao novo de Deus, faço apenas um alerta como
sugestão para que possamos nesse momento de grandes mudanças em nossa
sociedade, assim como da grande expectativa da Igreja quanto a continuidade do
agir de Deus em nossos dias, entender que nossas mentes estão cada dia mais
desejosas do instantâneo, que somos estimulados a todo tempo a sermos
reconhecidos pela nossa originalidade e aparência exterior. Nossa única
esperança de não cairmos na tentação de criarmos um falso deus é o Espírito
Santo, que nos revela o engano dos nossos corações a fim de identificarmos e aceitarmos
o verdadeiro novo de Deus.
Por fim, gostaria de lembrar da entrada
de Jesus em Jerusalém descrita nos evangelhos, assim como profetizada no livro
de Zacarias. Naquela época o povo de Israel estava submisso ao império romano, e
aguardava o Messias que os libertaria. A expectativa seria da chegada de um
guerreiro como Davi, um líder político-militar, homem cheio de influência e
autoridade, que derrotasse Roma e estabelecesse o reino prometido. Sabemos que,
ao invés disso, Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, montaria
utilizada pelos príncipes antigos.
Nesse cenário, a expectativa do
povo talvez fosse de uma entrada mais sofisticada em um cavalo mais pomposo e
acompanhado de uma guarda armada, fazendo então logo em seguida um discurso motivacional
para a conquista. Ao invés disso, chega humildemente num jumento, vai ao templo
e expulsa os vendedores, cura, recebe os louvores das crianças, confronta os
líderes religiosos e sai da cidade. Aparentemente a grande maioria das pessoas
não enxergaram o novo de Deus que chegara.
Aí está uma evidência do grande
perigo de achar que o novo de Deus está vinculado a nossa evolução tecnológica
e cultural. Pode-se considerar o burrinho como um exemplo de como Deus pode
realizar o seu novo a partir de coisas antigas e vistas como ultrapassadas. Não
entendo que devamos desprezar nossas novas ferramentas tecnológicas e estratégias
de comunicação, por exemplo, mas acho que precisamos buscar com zelo
identificar o quanto estão associadas a uma expectativa humana e deturpada da promessa
de Deus, assim como de como se dará a sua realização. Ou seja, em algumas situações o antigo e
ultrapassado deverá permanecer pois servirá para nos libertar de nossa
prepotência, orgulho e altivez.
Não estar aberto a isso pode nos
levar sutilmente a uma vida religiosa idólatra. Não depender do Espírito Santo
para isso demonstra que criamos um ídolo e estamos dependendo dele. Esse ídolo
nos levará a rejeitar o verdadeiro novo de Deus, Jesus Cristo. Não iremos
reconhecer nem sua aproximação, nem sua chegada, nem Ele mesmo. Através do
relatado em I Tessalonicenses 5 pode-se entender um pouco mais sobre o perigo que
envolve a mentalidade que se expande em nossos dias.
Paulo alerta a igreja sobre o grande
Dia do Senhor, que virá como um ladrão de noite, trazendo repentina destruição
para aqueles que se encontram num estado de acomodação em relação a realidade
desse retorno. Mesmo diante da miséria de uma vida sem a verdadeira comunhão
com Deus, vivem como se estivessem em paz e segurança, como quem se embriaga e
perde a noção da realidade.
Por outro lado, o apóstolo Paulo esclarece
que alguns não serão surpreendidos porque estarão vigilantes e sóbrios, ou seja,
saberão acerca dos “tempos e das estações”, vestidos da “couraça da fé e do amor,
e tendo como capacete a esperança da salvação”. Entendo aqui que para que não percamos
a visão correta da realidade, incluindo aqui a do verdadeiro novo de Deus,
precisamos estar atentos a esse grande Dia através de uma mente renovada pelo
Espírito Santo e protegida pela fé, amor e esperança da salvação.
Em meio aos desafios que temos vivido na nossa
geração, que nos convida todos os dias a nos “embriagarmos” com a mentalidade de
“paz e segurança” baseada nas nossas criações e vaidades, vejo que precisamos
entender que o indesejável e velho para nós talvez esteja servindo ao verdadeiro
novo. A antiga promessa da volta de Jesus, daquele grande Dia, deve estar mais
presente nos nossos pensamentos para que, iluminados pelo Espírito Santo,
possamos discernir o verdadeiro e imutável novo de Deus para nós, Jesus Cristo,
e rejeitar os novos ídolos que insistem em surgir.