quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Jesus na Festa dos Tabernáculos

 “Para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em tendas, quando os tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus. Levítico 23:43

Jesus foi a uma festa dos tabernáculos onde, ao invés de ser recebido como convidado mais ilustre, estava sob ameaça de morte (João 7:1) e crítica dos próprios irmãos (v.5), porque dava testemunho da maldade da humanidade (v.7).

Em meio a rejeição do povo, em segredo, sem reivindicar reconhecimento e glória (v.18), mesmo que para ouvir ser chamado de enganador e endemoniado (v. 12 e 20), foi a festa pela vontade do Pai (v.28).

O próprio Deus que ordenou a festa estava lá, e acredito que desejava visitar as tendas, e festejar a habitação e provisão de Deus para o povo durante sua peregrinação no deserto. No entanto, mesmo tão próximos fisicamente do grande motivo da festa, a maioria o rejeitou pois, na verdade, estavam bem distantes em seus interiores.

No último dia da festa Jesus diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva". Dessa forma, em meio a nossa peregrinação nesse mundo árido, ele nos chama para festejar a sua colheita como tendas cheias do Seu Espírito, sem perder de vista a razão da festa, o nosso refúgio, torre forte e provisão, Jesus! Somos chamados a nos deleitar nele, a festejar bebendo dEle, cheios do seu Espírito! Sem Ele nada podemos fazer! Do nosso interior fluirá rios de água viva!

“Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós.” 2 Coríntios 4:7

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O novo de Deus ou um novo deus?

Meditar sobre o novo de Deus talvez seja uma das importantes tarefas diante das intensas mudanças que temos vivenciado nas últimas décadas em nossa sociedade. A importância dessa tarefa aumenta diante também do expressivo aumento da velocidade do avanço tecnológico e mudança de mentalidade, trazendo um apelo quase irresistível ao novo descartável, ao novo que se mantem novo durante cada vez menos tempo.

A singularidade desse cenário pode ser percebida ao analisarmos algumas constatações, como a de que uma criança de 7 anos hoje tem acesso a mais informação do que um imperador romano. Ou a de que um determinado smartphone tem mais capacidade de processamento e armazenamento do que o computador da Apollo 11, que levou o homem à lua há aproximadamente 50 anos. Não é minha intenção demonstrar as particularidades do que alguns chamam de era da informação ou da quarta revolução industrial e seus impactos sociais, mas apenas ressaltar que vivemos dias em que estamos constantemente e velozmente tendo que se adaptar ao novo.

Aparentemente a frequência da “onda da inovação” aumentou como jamais tínhamos visto, e assim a sociedade vem passando por uma série de adaptações promovidas pela denominada revolução tecnológica, que vem transformando nossos relacionamentos pessoais, nossas relações de trabalho, nossa economia e governo. A meu ver, os dois principais “remos” que produzem as ondas de inovação tecnológica, o militarismo e o mercado, ganharam um potente motor com a chegada da internet, e assim estamos mergulhados nas redes sociais e no mar do big data.

Nesse cenário, pode-se concordar que essa nova realidade trouxe muitos benefícios para o nosso dia a dia. Hoje podemos comprar sem sair de casa, encontrar velhos amigos nas redes sociais, ter maior transparência e acesso a informações, trabalhar remotamente, etc.  Apesar disso, coincidência ou não, enfrentamos a doença do século, a depressão, os vícios oriundos do ambiente virtual, o consumismo e o desperdício aparentemente desenfreados.  

Concordo que seria talvez injusto colocar apenas na conta da inovação tecnológica todas essas mazelas, mas quero aqui trazer como reflexão o fato de que nos tornamos, como sociedade, reféns de um fenômeno que transformou o mercado e a nossa mentalidade no sentido de descartarmos o mais rápido possível o velho em busca do novo, num caminho perigoso de insatisfação e tédio. Essa nova mentalidade, que continua em desenvolvimento, está carregada de uma busca por ressignificar a realidade a partir da teoria que melhor satisfaz o indivíduo, e onde há uma satisfação na desvalorização do legado, na destruição e construção em nome da autenticidade e criatividade.

Diante disso, qual tem sido o impacto dessa realidade na igreja? Afinal de contas somos todos parte dessa sociedade em contínua transformação. Estamos lidando bem com a inovação tecnológica e cultural? Estamos conseguindo reter o que é bom e combater aquilo que atrapalha o processo de santificação daqueles que fazem parte da comunidade de fé? Estamos lidando bem com o novo de Deus ou apenas nos conformando ao novo normal?

Antes da pandemia ouvi muito líderes falarem fervorosamente do novo de Deus, inclusive convocando o povo a uma nova abordagem de evangelismo e estilo de vida. Afinal de contas tinha chegado a hora da nova geração assumir as rédeas da igreja com novos estilos musicais, nova linguagem, novos perfis de pregadores, novas técnicas de comunicação e motivação, nova ênfase na transformação social, etc. Muitos locais de reunião foram criados ou remodelados para atender as expectativas dessa nova geração sedenta pelo novo. Afinal de contas a igreja não estava dando certo e precisava se tornar mais relevante para a sociedade.

Esses dias ouvi um jovem líder de uma igreja cristã fazer uma veemente defesa do que chamou de novo de Deus. Sua pregação foi baseada na passagem de Isaias 43 e me chamou a atenção pelos exemplos que deu ao falar sobre o que deveríamos deixar para trás, assim como a ênfase no esquecimento inclusive das coisas boas que Deus tinha feito no passado. Num primeiro exemplo ele faz uma pequena brincadeira com o termo “mocidade”, usado por algumas comunidades para se referir ao grupo de jovens, dando a entender que seria algo a ser esquecido por não fazer parte do novo. Também falou um pouco da nova “cara” da igreja evangélica, que agora deixou de ser conhecida como a igreja das mulheres, de ignorantes e de pessoas feias, e se tornou de pessoas mais bonitas, inteligentes e influentes. Nesse sentido, a partir de uma leitura da nova realidade da igreja evangélica, mais numerosa e influente, deveríamos considerar isso como parte do novo de Deus.

Com todo respeito a esse jovem líder, penso que houve uma grande confusão sobre o que é o novo de Deus. Na passagem de Isaias 43 pode-se encontrar uma profecia a respeito do povo escolhido por Deus. Entendo que envolve tanto uma promessa relacionada ao livramento da Babilônia (novo êxodo) como também ao próprio Messias. Após ressaltar o controle de Deus sobre o que acontecia desde a antiguidade, o povo é orientado a esquecer as coisas passadas pois Deus iria fazer algo novo.

Se atentarmos um pouco ao contexto podemos claramente perceber que o chamado ao esquecimento não estava relacionado, por exemplo, a práticas e mandamentos ensinados no passado, nem tão pouco a uma cultura ultrapassada que levava o povo a não ser respeitado pelas outras nações, mas sim a um cenário passado que não deu certo devido ao pecado. Imagine um pai falando para um filho dependente químico que voltou a usar drogas: “Meu filho te amo tanto. És muito especial para mim. Vou seguir até o fim para te tirar dessa vida. Apesar de tudo que já fiz de bom por você, toda ajuda nos momentos de crise, todas as noites em que te resgatei nas ruas, mesmo assim você retornou a essa vida. Mas faça o seguinte: Esqueça o passado, vou fazer tudo de novo”.

A meu ver, é nesse sentido que Deus orienta o povo. Isso fica mais evidente quando lemos todo o capítulo, onde é relatada a infidelidade do povo em meio a tudo o que Deus fez, inclusive deixando claro que Israel tinha se cansado de Deus. Tinham se cansado dos mandamentos de Deus e passaram a fazer de uma nova forma, talvez mais prazerosa sob o ponto de vista humano. Lembro também que na pregação do jovem líder que comentei anteriormente continha uma critica a monotonia dos modelos de igreja do passado, alertando sobre a necessidade de a igreja buscar novas maneiras de combater o tédio das pessoas através, por exemplo, de uma proposta com mais adrenalina e aventura.

Sem querer fechar os olhos para os problemas históricos da igreja, pode-se notar claramente que a nova mentalidade social está bem presente em grande parte das comunidades cristãs como a desse jovem líder. Poderíamos comentar vários aspectos dessa realidade, mas aqui gostaria de focar em algo que, a meu ver, envolve a mais perigosa consequência dessa onda de inovação, a idolatria.

Algo parecido com o cenário relatado por Isaias ocorreu durante o período em que o povo de Israel acampou junto ao monte Sinai após a libertação da escravidão do Egito. Durante a subida e permanência de Moisés no monte durante 40 dias e noites, o povo se cansa de esperar e pressiona Arão para que construa um bezerro para ir à frente da marcha rumo a terra prometida. É interessante que, após a construção do bezerro com as joias que tinham trazido do Egito, o povo parece que ganha ânimo para levantar bem cedo, cultuar o que chamaram de yahweh e festejar.

Mas o que levaria o povo a tão rapidamente caírem na idolatria, mesmo depois de ver tantos milagres e manifestações de Deus? Muitos hoje dariam tudo para ver o que eles viram, não é mesmo? Procuram os sinais de Deus para crerem. Acredito essa queda revela o verdadeiro desejo daquele povo, ou seja, a conquista da terra prometida. Enquanto Deus construía o caminho para que o povo se aproximasse dEle em santidade, descobrindo que a Sua presença é a maior riqueza que poderiam receber, estava na verdade interessados exclusivamente na promessa. Além disso, penso que, diante talvez da oportunidade de criar algo novo para substituir o que não conseguiam mais controlar ou prever, talvez algo para eles que não tivesse uma forma muito atrativa ou confortável, o povo rapidamente utiliza suas capacidades e recursos para fazer algo mais agradável e prazeroso.

Considerando isso, pode-se perceber que uma das tentações no coração humano ao se deparar com a iminência do novo de Deus é criar um novo deus que atenda as expectativas da promessa de forma mais cômoda e festiva. De forma covarde, sabendo que isso pode nos “incriminar”, nos enganamos chamando o novo ídolo de yahweh, para camuflar nosso desejo mais prioritário. Realmente isso permanece acontecendo no coração do ser humano que de alguma forma se aproxima de Deus sem a intenção genuína de mudança para comunhão com Ele, mas sim para ter acesso as Suas promessas.

Mas o que mudou nos nossos dias em relação a essa realidade? Penso que nos tornamos mais impacientes de forma geral devido ao cenário dos nossos dias anteriormente relatado. Somos estimulados a todo momento a inovarmos de forma disruptiva e autêntica e a estarmos abertos a nova dinâmica social. Nossas mentes não param mais de produzir e pensar em como criar algo novo que nos traga reconhecimento e retorno financeiro. Falo não apenas na construção de novos produtos e serviços, mas também de novas formas de influenciar nossos seguidores para que sirvam aos nossos interesses pessoais. Todos querem criar algo que possa chamar de minha criação.

E no meio da igreja cristã? Será que estamos vencendo a tentação de criamos nosso bezerro de ouro interior? Estamos conseguindo esperar o novo de Deus por termos o interesse genuíno e prioritário de nos aproximar dEle para conhecê-lo ou cansamos de esperar e partimos para a conquista do prometido com as nossas construções? Não quero aqui desvalorizar as direções e promessas feitas por Deus a seus filhos com repercussões ainda aqui nesse mundo, mas será que nossas estratégias cheias de técnicas inovadoras e marketing não podem estar ocupando um lugar indevido?

Penso que talvez as pessoas que se aproximam das comunidades de fé estejam “embriagadas” com todo esse cenário de agitação. Estão como anestesiadas e sem força para lidar com toda essa pressão, sem tempo sequer para refletir sobre suas reais motivações a fim de andar em sobriedade.  Tenho a impressão então que toda a abordagem que nos leva a uma motivação para a conquista, mesmo que de algo direcionado por Deus, com base nas nossas preferências e desejos naturais, moldados inclusive pela nossa cultura, mas que não enfatizem o arrependimento e santificação, são fortes candidatos a carregarem um ídolo e nos levarem a um estado de engano rumo a ira de Deus.

Não quero aqui trazer à tona a velha discussão que envolve tradicionais versus renovados, jovens versus velhos, ou algo do tipo. Também não quero desconsiderar o valor da inovação e pensamento criativo equilibrado. O que trago é a reflexão sobre o lugar que essas ferramentas têm ocupado e influenciado a vida individual e comunitária como cristãos. Alguns até tentam justificar algumas escolhas na afirmação do apóstolo Paulo quando diz “fiz-me fraco, a fim de ganhar os fracos” na sua primeira carta aos Coríntios, capítulo 9 , no entanto, é importante diferenciar uma ação temporária e claramente estratégica de uma adaptação do estilo de vida.

A meu ver, ao falar do seu estilo de vida em relação à pregação do Evangelho, Paulo enfatiza que, “a fim de ganhar o maior número possível”, se fez servo de todos e, temporariamente, adaptava sua estratégia de pregação aos que tinham ou não a Lei, mesmo permanecendo sob a lei de Cristo. Noto que, diferente do que ocorre hoje, Paulo não se deleitava no estilo de vida daqueles que não andavam na lei de Cristo, mas convivia com essa realidade se esvaziando a fim de participar do Evangelho, envolvendo a redução de seu corpo (desejos, preferências, etc.) à servidão para que não fosse reprovado.

Ao compararmos o comportamento do apóstolo Paulo com alguns cenários de atuação de alguns dos evangelistas que, em nome do “ganhar multidões”, adaptam os seus estilos de vida aos daqueles que são alvo de suas pregações, mas aparentemente se deleitando em seus novos estilos, comportamentos e posições sociais. Sei que é delicado afirmar algo em relação a casos concretos, e não me proponho a isso, mas gostaria sim de provocar uma reflexão sobre se realmente temos vivido a abordagem de Paulo ou se temos encontrado nisso uma forma de nos embriagar com os nossos reais desejos ao mesmo tempo que adoramos a um novo deus.

Talvez muitos não estejam preocupados com essa realidade interior e, movidos pela força e beleza da juventude e domínio tecnológico, estejam cada vez mais confiantes e insistentes. Veja que essa frase anterior demonstra o grande desafio de esclarecimento sobre esse tema, já que envolve termos importantes e que podem estar presentes onde realmente o novo de Deus esteja verdadeiramente presente. A juventude e beleza, a ciência, a confiança e a perseverança são realmente coisas boas e desejáveis, sendo inclusive originadas em Deus. No entanto, quando desprovidas do Espírito de Deus, podem ser insumos para a construção de um ídolo interior que nos conduzirá a destruição.

Dessa forma, sem querer de alguma forma deixar a impressão de que teria objetivamente como julgar nossas estratégias ou ações em resposta ao novo de Deus, faço apenas um alerta como sugestão para que possamos nesse momento de grandes mudanças em nossa sociedade, assim como da grande expectativa da Igreja quanto a continuidade do agir de Deus em nossos dias, entender que nossas mentes estão cada dia mais desejosas do instantâneo, que somos estimulados a todo tempo a sermos reconhecidos pela nossa originalidade e aparência exterior. Nossa única esperança de não cairmos na tentação de criarmos um falso deus é o Espírito Santo, que nos revela o engano dos nossos corações a fim de identificarmos e aceitarmos o verdadeiro novo de Deus.

Por fim, gostaria de lembrar da entrada de Jesus em Jerusalém descrita nos evangelhos, assim como profetizada no livro de Zacarias. Naquela época o povo de Israel estava submisso ao império romano, e aguardava o Messias que os libertaria. A expectativa seria da chegada de um guerreiro como Davi, um líder político-militar, homem cheio de influência e autoridade, que derrotasse Roma e estabelecesse o reino prometido. Sabemos que, ao invés disso, Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, montaria utilizada pelos príncipes antigos.

Nesse cenário, a expectativa do povo talvez fosse de uma entrada mais sofisticada em um cavalo mais pomposo e acompanhado de uma guarda armada, fazendo então logo em seguida um discurso motivacional para a conquista. Ao invés disso, chega humildemente num jumento, vai ao templo e expulsa os vendedores, cura, recebe os louvores das crianças, confronta os líderes religiosos e sai da cidade. Aparentemente a grande maioria das pessoas não enxergaram o novo de Deus que chegara.

Aí está uma evidência do grande perigo de achar que o novo de Deus está vinculado a nossa evolução tecnológica e cultural. Pode-se considerar o burrinho como um exemplo de como Deus pode realizar o seu novo a partir de coisas antigas e vistas como ultrapassadas. Não entendo que devamos desprezar nossas novas ferramentas tecnológicas e estratégias de comunicação, por exemplo, mas acho que precisamos buscar com zelo identificar o quanto estão associadas a uma expectativa humana e deturpada da promessa de Deus, assim como de como se dará a sua realização.  Ou seja, em algumas situações o antigo e ultrapassado deverá permanecer pois servirá para nos libertar de nossa prepotência, orgulho e altivez.

Não estar aberto a isso pode nos levar sutilmente a uma vida religiosa idólatra. Não depender do Espírito Santo para isso demonstra que criamos um ídolo e estamos dependendo dele. Esse ídolo nos levará a rejeitar o verdadeiro novo de Deus, Jesus Cristo. Não iremos reconhecer nem sua aproximação, nem sua chegada, nem Ele mesmo. Através do relatado em I Tessalonicenses 5 pode-se entender um pouco mais sobre o perigo que envolve a mentalidade que se expande em nossos dias.

Paulo alerta a igreja sobre o grande Dia do Senhor, que virá como um ladrão de noite, trazendo repentina destruição para aqueles que se encontram num estado de acomodação em relação a realidade desse retorno. Mesmo diante da miséria de uma vida sem a verdadeira comunhão com Deus, vivem como se estivessem em paz e segurança, como quem se embriaga e perde a noção da realidade.

Por outro lado, o apóstolo Paulo esclarece que alguns não serão surpreendidos porque estarão vigilantes e sóbrios, ou seja, saberão acerca dos “tempos e das estações”, vestidos da “couraça da fé e do amor, e tendo como capacete a esperança da salvação”. Entendo aqui que para que não percamos a visão correta da realidade, incluindo aqui a do verdadeiro novo de Deus, precisamos estar atentos a esse grande Dia através de uma mente renovada pelo Espírito Santo e protegida pela fé, amor e esperança da salvação.

Em meio aos desafios que temos vivido na nossa geração, que nos convida todos os dias a nos “embriagarmos” com a mentalidade de “paz e segurança” baseada nas nossas criações e vaidades, vejo que precisamos entender que o indesejável e velho para nós talvez esteja servindo ao verdadeiro novo. A antiga promessa da volta de Jesus, daquele grande Dia, deve estar mais presente nos nossos pensamentos para que, iluminados pelo Espírito Santo, possamos discernir o verdadeiro e imutável novo de Deus para nós, Jesus Cristo, e rejeitar os novos ídolos que insistem em surgir.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O que é a Igreja diante do Covid-19?


Corona
Nesses dias de isolamento social forçado tenho buscado refletir sobre as causas que nos levaram a sermos surpreendidos pela pandemia covid-19. Nesse contexto, inevitavelmente estão presentes as discussões a respeito do processo de identificação e divulgação sobre o vírus, que, para muitos, caso tivesse sido mais ágil e transparente, poderia ter amenizado seus efeitos.Apesar de concordar sobre a importância dessa discussão, quero aqui enfatizar a impressão de que vivemos um modelo de sociedade altamente vulnerável a esse tipo de ameaça.

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos em diversas áreas, estamos tendo que lidar com riscos significativos de colapso social devido a negligência e ganância de muitos. Não foi por falta de previsibilidade quanto ao surgimento de um novo vírus ou por falta de recursos que enfrentamos essa realidade tão dura despreparados. Não querendo ser simplista, entendo que chegamos a esse cenário fundamentalmente devido a escolhas gananciosas e egoístas não apenas das grandes lideranças, mas também das populações que representam, que subordinaram seus Estados aos interesses econômicos dos mais poderosos, mesmo que, em grande parte, como reféns da cultura do consumo e desperdício.


Como cristãos, por analogia, podemos também identificar cenário semelhante no âmbito da perspectiva visível e institucional da igreja. Em meio a tantas previsões bíblicas sobre o que está acontecendo nesses dias, será que realmente acreditamos que iria acontecer? Se sim, nossos estilos de vida, envolvendo nossas rotinas e estruturas eclesiásticas, foram preparados para momentos como esse?  Ou será que fomos realmente surpreendidos como qualquer outro tipo de organização social? Estaríamos conformados? A igreja invisível e católica estaria acorrentada e agora dependente da tecnologia ou de nossos espaços de reuniões coletivas para ser testemunha de seu Cabeça e continuar cumprindo sua missão? Nossos treinamentos envolveram capacitação individual e familiar para respondermos a esse momento como Igreja inabalável?

Acredito que as respostas para essas questões não são triviais e envolveriam boas e longas conversas. Apesar disso, pode-se perceber que há uma questão fundamental que permeia todas essas questões: O que é Igreja? Para alguns talvez a resposta esteja na ponta da língua, no entanto, na prática, o que vemos são evidências, a partir das reações individuais e institucionais nesse momento de pandemia, de que a grande maioria se encontra confusa e sem identidade. Afinal de contas, como ser igreja sem as grandes aglomerações em estádios, sem os shows musicais, sem os grandes avanços evangelísticos, sem as nossas reuniões presenciais ou até mesmo virtuais? O que é igreja hoje para aqueles que não têm acesso aos recursos tecnológicos?


Não quero aqui diminuir a importância das ferramentas, métodos e estruturas que utilizamos na organização de nosso convívio comunitário, tão importantes para a nossa saúde emocional e edificação. Apesar disso, entendo que precisamos refletir sobre a nossa capacidade de nos adaptar a cenários onde não teríamos acesso a esses recursos. Nesse sentido, o nível de dependência que temos de nossa maneira de nos organizar pode então revelar uma relação apenas natural com a igreja, podendo envolver inclusive uma idolatria institucional disfarçada, incompatível com um relacionamento orgânico e espiritual com o Corpo de Cristo.


Estudos sobre esse tema vem sendo desenvolvidos desde o primeiro século da vida da igreja cristã, e até hoje envolve importantes discussões teológicas. Realmente não é o objetivo dessa reflexão desbravar o território da eclesiologia em sua profundidade, mas sim apresentar algumas impressões sobre a aparente crise de identidade ressaltada nesse período tão impactante para a humanidade.
Nesse sentido, podemos lembrar que o termo bíblico igreja está associado inicialmente a palavra hebraica ‘qahal’, relacionada no Velho Testamento ao sentido de assembleia ou congregação de Israel. Provavelmente Jesus utiliza esse termo nas passagens de Mateus, tendo sido registrado pelo grego ‘ekklesia’ devido ao público destinatário da mensagem. Estaria então Jesus sinalizando a inauguração de uma nova estrutura religiosa, mesmo que a partir da ressignificação dos elementos do judaísmo e expandindo o acesso também aos gentios? Surgiria então uma nova proposta de templo, rotinas e comportamentos morais que substituiriam a caduca estrutura religiosa, dando origem ao cristianismo?

Acredito que não, mas sim que mais uma vez Jesus estava usando a linguagem figurada para fazer referência a uma realidade espiritual que pode ser melhor entendida através das cartas de seu interlocutor em Mateus 16:18, o apóstolo Pedro. Em II Pedro 2 podemos encontrar o relato sobre a pedra viva que foi rejeitada pelos homens, mas que diante de Deus é eleita e preciosa, Jesus. Por meio dessa Pedra somos convocados: ‘vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo’.

O apóstolo Pedro traz a revelação sobre para onde apontava toda a estrutura religiosa em torno do povo de Israel. Uma nação chamada por Deus e separada para uma aproximação sacerdotal, em torno de um templo físico, tropeçara na pedra de tropeço, mas, mesmo assim continuou sendo alvo do amor divino. No entanto, chegado o momento de abandonar a estrutura organizacional e as funções temporárias e se entregar à mais perfeita construção de Deus, rejeitaram a pedra angular que também os fez tropeçar.

Por outro lado, os que creem na pedra angular, dentre todas as raças, línguas e nações, são: ‘raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade’. O que crer ‘não será confundido’, e a pedra angular, Jesus Cristo, será um tesouro para ele. Vejo que o apóstolo Pedro estava bem esclarecido sobre a pedra referida por Jesus quando disse ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja’, já que ensina sobre uma realidade de edificação espiritual fundamentada em Cristo, e coloca aqueles que creem, incluindo ele mesmo, como parte desse edifício.

Nesse sentido, podemos encontrar em Hebreus 3 uma referência a Jesus Cristo como apóstolo e Sumo Sacerdote da profissão de fé dos seus discípulos, que seriam as casas ou o ambiente sacerdotal em Cristo. Pode-se entender que a morada de Deus, a casa construída pelo arquiteto de tudo, o próprio Deus, envolve essencialmente uma realidade espiritual interior.

Essa realidade é ensinada também pelo apóstolo Paulo em suas cartas, onde os cristãos seriam santuário de Deus e Corpo de Cristo, Sua Igreja. Com isso, percebe-se que há uma realidade interior comum a todos esses termos usados para revelar nossa vinculação à Deus por meio de Cristo, a Sua presença em nós. Deus habita no interior daqueles que são Igreja de Cristo.

Pode-se entender então que a realidade de ser Igreja tem origem no interior e se manifesta ao exterior através das perspectivas individual, familiar, comunitária e social. Ou seja, alguém alcançado pela Graça de Deus, sendo templo e morada do Espírito Santo, é Igreja em qualquer perspectiva. Sei que esse pensamento pode ser confundido com o apregoado por aqueles que desprezam o congregar, no entanto, quando bem entendido, acredito que serve para fortalecer nossas expressões coletivas da Igreja de Cristo.

Sobre a perspectiva individual da manifestação da Igreja, pode-se imaginar o templo interior construído em Cristo como um “lugar” de comunhão com Deus onde podemos nos encontrar espiritualmente como membros de Seu Corpo. Imagine então uma adoração em Espírito e em Verdade, envolvendo a consciência da Presença do Criador, de uma pessoa no Brasil dentro de seu quarto no mesmo momento que outra pessoa também O adora na África dentro de uma prisão. Essas pessoas estão expressando a Igreja, mesmo que separadas fisicamente e a sós, porque são a Igreja. São Igreja porque congregam na Presença de Deus em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo.

O que quero então ressaltar antes de comentar sobre qualquer outra perspectiva da expressão da Igreja é que esse período de pandemia, envolvendo o isolamento social, não tem a mínima capacidade de impactar a Igreja. A verdadeira Igreja continua sua obra aqui na terra em meio às nossas limitações humanas e de mobilidade. A Palavra de Deus continua a ser propagada através de Sua Igreja inabalável que se reúne em Sua Presença.

Adentrando nas expressões coletivas da Igreja, considero a família como o lugar do primeiro nível de manifestação dessa realidade quando há mais de uma nova criatura envolvida. Quando, no mínimo, duas expressões individuais da Igreja estão juntas fisicamente algo diferente acontece certamente. Surge então um contexto propício para a manifestação prática do amor, da generosidade, da justiça e da paz. Esposo e esposa, por exemplo, passam a expressar a relação de íntima unidade de Cristo e Sua Noiva. Filhos obedecem a seus pais, não mais por obrigação, mas porque encontraram referência em Cristo, exemplo de submissão ao Pai. Quando dois ou mais se reúnem na Presença de Deus, em nome de Jesus Cristo, ali se manifesta a Igreja.

Infelizmente muitos dos que frequentavam as igrejas cristãs foram gravemente impactados pelo isolamento forçado decorrente da pandemia do covid-19. Muitos líderes também demonstram muita preocupação com aqueles que simplesmente “desapareceram”, e assim aparentemente buscam ansiosamente o retorno das atividades presenciais. Alguns, desde o início da pandemia, foram bem incisivos nas redes sociais, se envolvendo em embates em nome da defesa da igreja e reivindicando o direito de retomar suas reuniões. Em meio a isso, críticas e piadas envolvendo as estruturas denominacionais, por aparentemente não estarem tendo poder sobre o covid-19, foram publicadas aos montes também nas redes sociais, impactando em cheio muitos cenários da denominada cristandade.


Acredito que, em muitos casos, as preocupações dessas lideranças sejam legitimas e sinceras, no entanto, não confundamos o atendimento de nossas necessidades naturais de convívio social, muitas vezes buscado através do reconhecimento vaidoso dos outros, com a realidade espiritual que independe disso. Novamente, não quero diminuir, por exemplo, a importância do ensino, louvor e evangelismo coletivos, no entanto, surge naturalmente em mim a impressão de que algo trouxe uma dependência institucional e funcional que coloca a realidade espiritual da Igreja em segundo plano, ou até mesmo comprova sua inexistência na vida de muitos. Por outro lado, as críticas daqueles que não têm qualquer envolvimento com a Igreja, mesmo que não baseadas em boas intenções, podem servir como reflexão sobre o testemunho real da igreja institucional.

Diante disso, podemos então nos perguntar: será que nosso desejo de voltar às nossas rotinas eclesiásticas são realmente porque entendemos a importância desse ajuntamento como mais uma expressão daquilo que também vivemos individualmente e familiarmente, ou estamos na verdade querendo voltar aos nossos disfarces e rotas de fuga? Será que a nossa ansiedade em voltar envolve o desejo de estarmos realmente mais perto daqueles com quem devemos partilhar o que temos? Acredito que vivemos um momento de aprendizado em muitas áreas, incluindo sobre o que é ser Igreja. E nessa escola, tenho a impressão de que ser Igreja envolve viver essa realidade espiritual independente de nossas limitações materiais e provisórias. É não criar escapes para os processos que Deus tem para nós, incluindo nossos desafios individuais e familiares, e realmente permanecer continuamente na Casa de Deus.


Dessa forma, desejo sim que estejamos juntos fisicamente muito em breve, e confesso que sou muito edificado por esses momentos. Além disso, estar entre amigos e familiares traz renovo e aumenta nossa sensação de utilidade, promovendo nossa saúde física e emocional. No entanto, peço a Deus que realize tudo o que for preciso em nós durante esse período de afastamento, envolvendo as capacitações necessárias para que os nossos ajuntamentos sirvam como expressão da Igreja, nos preparando para o grande encontro. Que esse retorno seja cheio de harmonia e paz, envolvendo uma consciência que a Igreja nunca deixou de ser aquilo que Jesus falou a seu respeito: “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Que sejamos conhecidos pelo Amor, Unidade e Serviço, e que, como as virgens prudentes de Mateus 25, sejamos encontrados cheios do Espírito Santo, não importa o lugar!

terça-feira, 9 de junho de 2020

Identificando e combatendo o autoengano religioso de olho nas evidências do Amor

Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1, Parte 2 ou Parte 3, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe! 


Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte final



A passagem de João 13 revela que Jesus Cristo, em meio a consciência de que haveria de ser traído e entregue para ser crucificado, amou os seus seguidores até o fim. Nesse cenário, o mestre lava os pés dos seus discípulos convocando-os a imitá-lo em sua postura de esvaziamento e renúncia, em amor. Ato contínuo, após a saída do traidor, Jesus os entrega um novo mandamento no sentido de que amassem uns aos outros como Ele os tinha amado, para fossem reconhecidos como discípulos. 

Em João 17:21-23, ao interceder pelos seus discípulos, Jesus esclarece sobre a importância da evidenciação da unidade dos seus seguidores, já que seria instrumento para que o mundo cresse Nele. Em consequência disso, nota-se que a pregação ordenada na Grande Comissão (Marcos 16), visando levar toda criatura a crer, precisa envolver necessariamente uma mensagem coerente que integra as evidências do amor e da unidade coletivos às palavras proferidas durante a pregação. 

  As evidências ensinadas por Jesus seriam a fundamentação de uma mensagem cristã, e, em alguns casos, a própria mensagem sem palavras. Mesmo diante disso, não precisamos nos esforçar muito para encontrarmos comunidades de fé cristãs que não evidenciam os elementos fundamentais do evangelho de Cristo, no entanto, estão abarrotadas de seguidores. Em muitos casos, as evidências bíblicas fundamentais foram substituídas pelas baseadas no crescimento numérico e econômico, levando muitos a seguirem a retórica de um evangelho deturpado. 

Projetos de amor e generosidade podem ser entendidos como iniciativas para construção de novas realidades na vida daqueles que se encontram em necessidade, envolvendo a promoção do contentamento dos membros da comunidade de fé, pela reflexão e colaboração dentro do ciclo de dar e receber. Diferente do que muitos entendem, esses projetos não seriam ações isoladas e desvencilhadas das demais frentes de trabalho, como o evangelismo ou discipulado, por exemplo, mas se integrariam a essas como pregação, sendo evidências fundamentais de uma comunidade de fé cristã.  

Pode-se concluir que a ausência de ações que buscam combater possíveis vulnerabilidades sociais em contextos de famílias carentes, que fazem parte de uma determinada comunidade de fé, em meio a um contexto de destinação de significativos volumes de recursos para outros tipos de projetos ou para o custeio organizacional, é um forte indício de que essa comunidade apresenta desalinhamento em relação à missão de Deus e que não tem permanecido no amor.  

Muitos tentam justificar realidades como essa alegando que o amor de Deus pode ser manifesto de muitas formas, como através de eventos evangelísticos, retiros, cultos, discipulado, entre outras. Nesse sentido, a manutenção e a expansão das infraestruturas de suporte aos projetos diretamente relacionados a esses assuntos tornam-se prioridades, tendo como justificativa a prioridade da “pregação do evangelho para a salvação das almas”. 

É realmente importante entender que a manifestação do amor de Deus através de uma comunidade de fé é multiforme. É também necessário que consideremos que todas as possíveis formas podem ser maculadas por motivações egoístas e ambiciosas, como exemplifica o apóstolo Paulo em Filipenses 1:17. A troca indevida das evidências básicas do amor, que envolveriam as ações de benevolência manifestas em projetos coletivos ou em ações individuais, pelas baseadas no crescimento numérico de membros, pode levar a um cenário onde a real restauração de vidas, garantida pelo maior interessado na missão de Deus, o próprio Deus, independente da integridade motivacional dos envolvidos, seja associada a estratégias maculadas pela competição e pelo egoísmo. 

Infelizmente esse quadro é muito mais comum do que podemos imaginar, levando a um caminho que conduz ao descrito na passagem de Mateus 7:22-23, onde pessoas que carregariam inclusive alguns sinais extraordinários citados em Marcos 16:17-18 seriam rejeitadas por Jesus Cristo por não terem realizado verdadeiramente a vontade do Pai. É diante desse perigo que podemos também compreender a importância de projetos de amor e generosidade, já que ajudam a materializar a unidade comunitária, essencialmente produzida pelo Espírito Santo, assim como nos confrontar continuamente com nossas tendências individualistas ao nos envolver muitas vezes em tarefas e contextos que não seriam compatíveis com a nossa vontade própria, no entanto, viabilizados pelo amor. 

Por fim, podemos concluir que projetos de amor e generosidade são uma poderosa ferramenta para o alinhamento de uma comunidade de fé à missão de Deus. Integrados ao processo de santificação, que envolve assuntos com a adoração, discipulado, evangelização, etc., além de serem resultados exclusivos do amor, servem como exames periódicos para avaliação de nossa espiritualidade individual e coletiva. Nesse sentido, são fundamentais para a construção de comunidades de fé relevantes para a missão de Deus e, consequentemente, para a promoção da paz e da justiça social. 

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Da tirania das coisas ao amor de Deus

Olá pessoal!  Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1 ou a Parte 2, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe! 

Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 3



Tozer (2016, p. 31-40),compartilha a visão de que o pecado transformou as “coisas”, presentes de Deus para o sustento e deleite da humanidade, em fonte potencial de destruição do ser humano. Nesse sentido, com a exclusão de Deus de seu coração, o ser humano passa a ter uma vida descontente, dominada pela tirania das “coisas”, onde o processo de satisfação de suas necessidades se torna desequilibrado e destrutivo. 

O economista Manfred Max-Neef (1991, p. 13-54), em conjunto com outros pesquisadores, desenvolveu uma taxonomia de necessidades humanas a partir da análise do que denomina megacrise mundial. Nesse sentido, parte de uma visão de desenvolvimento sustentável focada no ser humano e na sua harmonia com a natureza, e não mais no modelo econômico tradicional que enfatiza os bens. 

Apesar de inovar em relação ao nível de abstração e detalhes sobre a classificação das necessidades básicas, adotando uma abordagem mais sistêmica e voltada para a integração do indivíduo com a natureza e sociedade, percebe-se que, assim como em Maslow (1943, p. 1-21), há uma linha de pensamento humanista que aparentemente lança sua esperança de equilíbrio desse sistema numa pretensa autonomia da humanidade. 

Não é de hoje esse tipo de reflexão sobre as necessidades humanas. No século IV a. C, o filósofo Epicuro também desenvolveu sua proposta de classificação das necessidades humanas em meio aos ensinos sobre como alcançar uma vida prazerosa e feliz. Para isso, era fundamental a simplificação dessas necessidades, já que, quanto menos necessidade o indivíduo tem, menor a probabilidade de ter alguma delas não suprida, evitando assim o sofrimento. 

Podemos então através dos estudos desses autores entender um pouco mais sobre as complexidades que envolvem a satisfação das necessidades humanas, principalmente quando consideramos também a relação do indivíduo com a natureza e a sociedade. Pode-se notar que essas complexidades têm levado alguns outros autores à inclusão da espiritualidade como elemento fundamental na busca pelo equilíbrio sistêmico que envolve tanto a perspectiva individual como a social. Apesar disso, as espiritualidades geralmente associadas a essas abordagens são as que consideram o espírito humano como elemento autônomo e capaz de se auto equilibrar. 

Dessa forma, podemos explicar o fato de que, mesmo após milênios de reflexões, a humanidade tenha chegado à megacrise identificada por Max-Neef. Koyzis (2014, p. 15-46) analisa ideologias e visões que fundamentam talvez a totalidade de governos e Estados contemporâneos, que se propõem a influenciar e organizar a sociedade no sentido da satisfação das necessidades coletivas e individuais. O autor identifica raízes idólatras em todas as propostas analisadas, corroborando com o entendimento de que não há tendência ao equilíbrio em meio a propostas que excluem Deus do centro dos corações humanos, no sentido do pensamento de Tozer (2016, p. 31-40). 

Por outro lado, muitos consideram o amor como o fundamento para uma sociedade justa e equilibrada. No entanto, assim como no caminho da valorização da espiritualidade humanista, se limitam a considerar apenas o que Lewis (2017, p. 171-172) trata como sendo amores naturais, que temos como semelhança divina, reivindicando para si o lugar de Deus, impedindo uma aproximação por abordagem, ou seja, por imitação, do amor divino, único capaz de promover o equilíbrio do ser. 

Lewis enfatiza ainda que o amor-Dádiva e amor-Necessidade naturais precisam ser equilibrados pelo amor-Dádiva divino, a Caridade, através do qual o ser humano poderá amar sem parcialidade aquilo que não é naturalmente amável, bem como ter clareza quanto a real necessidade que tem de Deus e dos outros. 

Ao refletir sobre o propósito de Deus para com a humanidade, Lee (2010, p. 7-15) ressalta que a intenção divina sempre foi distribuir ou dispensar a Si mesmo, que é amor, para dentro do homem por meio da Trindade. Edwards (2015, p. 128), ao comentar sobre a repercussão prática da Caridade na vida dos cristãos, afirma que o principal elemento do amor é a benevolência. Nesse sentido, considera o ato de fazer o bem como evidência da presença do amor, levando o indivíduo ou uma coletividade a não se limitar apenas às palavras, mas demonstrar esse amor espontaneamente por meio de ações práticas. 

O Pacto de Lausanne (1974), documento elaborado como fruto do Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, Suíça, apesar de não ter sido pioneiro na reflexão sobre a relação entre a evangelização e o envolvimento sócio-político do cristão, certamente influenciou de maneira impar o surgimento de movimentos que passaram a enxergar a integralidade da missão de Deus como mais clareza, contribuindo para o combate da dicotomia existente entre as obras e a graça. Apesar disso, muitos desses movimentos contribuíram também para o surgimento de cenários confusos e conflituosos, inclusive envolvendo momentos de significativos embates entre cristãos, por aparentemente terem se envolvido demasiadamente em discussões ideológicas e políticas, perdendo assim o foco e inviabilizando sua relevância prática.  

Mesmo diante disso, certamente permanece viva um importante aspecto enfatizado em Lausanne, que aponta para uma mensagem evangélica mais coerente, que se preocupa com a salvação e restauração do ser humano integralmente. Nesse sentido, percebe-se o papel ímpar da igreja no sentido de ser referencial de comunidade em contentamento, devendo materializar, através de suas pregações e ações, um estilo de vida pautado na economia de Deus (LEE, 2010, p. 7-15), sendo assim reproduções dEle.  

Talvez, ao invés de adotar um caminho mais ousado de se envolver organizacionalmente em transformações sociais por meio do sistema político, sem prejuízo à necessária participação individual dos cristãos no Estado e Governo, a igreja precise experimentar uma realidade interna de contentamento e justiça social, para assim, quem sabe, provocar o interesse externo genuíno em conhecer e se entregar ao fundamento dessa desejável realidade, o amor de Deus. 

Referências bibliográficas

EDWARDS, Jonathan. Caridade e seus frutos: um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015. 

KOYZIS, David T. Visões & Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014. 

LEE, W. A economia de Deus. Edição para distribuição em massa. CA: USA, 2010. E-Book. ISBN 978-0-7363-3412-9. Disponível em: < http://www.euvosescrevi.com.br/wp-content/uploads/2015/08/EOG-por.pdf >. Acesso em: 20/07/2019. 

LEWIS, C. S. Os quatro amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 

MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, 50: 390-6,1943. 

MAX-NEEF, M. Human Scale Development: conception, application and further reflections. The Apex Press, New York, 1991. 

PACTO DE LAUSANNE, 1974.  Disponível em: <https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/pacto-de-lausanne-pt-br/pacto-de-lausanne>. Acesso em: 04/07/2019. 

PMI INC. Um Guia do Conhecimento de Gerenciamento de Projetos (Guia PMBoK®). 6a Edição ed. Newton Square, PA: 2017a. 

TOZER, A. W. Em busca de Deus: minha alma anseia por ti. São Paulo: Vida, 2016.