Olá pessoal! Essa é a continuidade de um conjunto de publicações relacionadas ao tema abaixo. Se você ainda não leu a Parte 1 ou a Parte 2, pode acessar através desses links. Espero que sirvam para vossa edificação. Deus nos abençoe!
Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 3
Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 3
Tozer (2016, p. 31-40),compartilha a visão de que o pecado transformou as “coisas”, presentes de Deus para o sustento e deleite da humanidade, em fonte potencial de destruição do ser humano. Nesse sentido, com a exclusão de Deus de seu coração, o ser humano passa a ter uma vida descontente, dominada pela tirania das “coisas”, onde o processo de satisfação de suas necessidades se torna desequilibrado e destrutivo.
O economista Manfred Max-Neef (1991, p. 13-54), em conjunto com outros pesquisadores, desenvolveu uma taxonomia de necessidades humanas a partir da análise do que denomina megacrise mundial. Nesse sentido, parte de uma visão de desenvolvimento sustentável focada no ser humano e na sua harmonia com a natureza, e não mais no modelo econômico tradicional que enfatiza os bens.
Apesar de inovar em relação ao nível de abstração e detalhes sobre a classificação das necessidades básicas, adotando uma abordagem mais sistêmica e voltada para a integração do indivíduo com a natureza e sociedade, percebe-se que, assim como em Maslow (1943, p. 1-21), há uma linha de pensamento humanista que aparentemente lança sua esperança de equilíbrio desse sistema numa pretensa autonomia da humanidade.
Não é de hoje esse tipo de reflexão sobre as necessidades humanas. No século IV a. C, o filósofo Epicuro também desenvolveu sua proposta de classificação das necessidades humanas em meio aos ensinos sobre como alcançar uma vida prazerosa e feliz. Para isso, era fundamental a simplificação dessas necessidades, já que, quanto menos necessidade o indivíduo tem, menor a probabilidade de ter alguma delas não suprida, evitando assim o sofrimento.
Podemos então através dos estudos desses autores entender um pouco mais sobre as complexidades que envolvem a satisfação das necessidades humanas, principalmente quando consideramos também a relação do indivíduo com a natureza e a sociedade. Pode-se notar que essas complexidades têm levado alguns outros autores à inclusão da espiritualidade como elemento fundamental na busca pelo equilíbrio sistêmico que envolve tanto a perspectiva individual como a social. Apesar disso, as espiritualidades geralmente associadas a essas abordagens são as que consideram o espírito humano como elemento autônomo e capaz de se auto equilibrar.
Dessa forma, podemos explicar o fato de que, mesmo após milênios de reflexões, a humanidade tenha chegado à megacrise identificada por Max-Neef. Koyzis (2014, p. 15-46) analisa ideologias e visões que fundamentam talvez a totalidade de governos e Estados contemporâneos, que se propõem a influenciar e organizar a sociedade no sentido da satisfação das necessidades coletivas e individuais. O autor identifica raízes idólatras em todas as propostas analisadas, corroborando com o entendimento de que não há tendência ao equilíbrio em meio a propostas que excluem Deus do centro dos corações humanos, no sentido do pensamento de Tozer (2016, p. 31-40).
Por outro lado, muitos consideram o amor como o fundamento para uma sociedade justa e equilibrada. No entanto, assim como no caminho da valorização da espiritualidade humanista, se limitam a considerar apenas o que Lewis (2017, p. 171-172) trata como sendo amores naturais, que temos como semelhança divina, reivindicando para si o lugar de Deus, impedindo uma aproximação por abordagem, ou seja, por imitação, do amor divino, único capaz de promover o equilíbrio do ser.
Lewis enfatiza ainda que o amor-Dádiva e amor-Necessidade naturais precisam ser equilibrados pelo amor-Dádiva divino, a Caridade, através do qual o ser humano poderá amar sem parcialidade aquilo que não é naturalmente amável, bem como ter clareza quanto a real necessidade que tem de Deus e dos outros.
Ao refletir sobre o propósito de Deus para com a humanidade, Lee (2010, p. 7-15) ressalta que a intenção divina sempre foi distribuir ou dispensar a Si mesmo, que é amor, para dentro do homem por meio da Trindade. Edwards (2015, p. 128), ao comentar sobre a repercussão prática da Caridade na vida dos cristãos, afirma que o principal elemento do amor é a benevolência. Nesse sentido, considera o ato de fazer o bem como evidência da presença do amor, levando o indivíduo ou uma coletividade a não se limitar apenas às palavras, mas demonstrar esse amor espontaneamente por meio de ações práticas.
O Pacto de Lausanne (1974), documento elaborado como fruto do Congresso Mundial de Evangelização em Lausanne, Suíça, apesar de não ter sido pioneiro na reflexão sobre a relação entre a evangelização e o envolvimento sócio-político do cristão, certamente influenciou de maneira impar o surgimento de movimentos que passaram a enxergar a integralidade da missão de Deus como mais clareza, contribuindo para o combate da dicotomia existente entre as obras e a graça. Apesar disso, muitos desses movimentos contribuíram também para o surgimento de cenários confusos e conflituosos, inclusive envolvendo momentos de significativos embates entre cristãos, por aparentemente terem se envolvido demasiadamente em discussões ideológicas e políticas, perdendo assim o foco e inviabilizando sua relevância prática.
Mesmo diante disso, certamente permanece viva um importante aspecto enfatizado em Lausanne, que aponta para uma mensagem evangélica mais coerente, que se preocupa com a salvação e restauração do ser humano integralmente. Nesse sentido, percebe-se o papel ímpar da igreja no sentido de ser referencial de comunidade em contentamento, devendo materializar, através de suas pregações e ações, um estilo de vida pautado na economia de Deus (LEE, 2010, p. 7-15), sendo assim reproduções dEle.
Talvez, ao invés de adotar um caminho mais ousado de se envolver organizacionalmente em transformações sociais por meio do sistema político, sem prejuízo à necessária participação individual dos cristãos no Estado e Governo, a igreja precise experimentar uma realidade interna de contentamento e justiça social, para assim, quem sabe, provocar o interesse externo genuíno em conhecer e se entregar ao fundamento dessa desejável realidade, o amor de Deus.
Referências bibliográficas
EDWARDS, Jonathan. Caridade e seus frutos: um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13. São José dos Campos, SP: Fiel, 2015.
KOYZIS, David T. Visões & Ilusões políticas: uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo: Vida Nova, 2014.
LEE, W. A economia de Deus. Edição para distribuição em massa. CA: USA, 2010. E-Book. ISBN 978-0-7363-3412-9. Disponível em: < http://www.euvosescrevi.com.br/wp-content/uploads/2015/08/EOG-por.pdf >. Acesso em: 20/07/2019.
LEWIS, C. S. Os quatro amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
MASLOW, A. H. A theory of human motivation. Psychological Review, 50: 390-6,1943.
MAX-NEEF, M. Human Scale Development: conception, application and further reflections. The Apex Press, New York, 1991.
PACTO DE LAUSANNE, 1974. Disponível em: <https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/pacto-de-lausanne-pt-br/pacto-de-lausanne>. Acesso em: 04/07/2019.
PMI INC. Um Guia do Conhecimento de Gerenciamento de Projetos (Guia PMBoK®). 6a Edição ed. Newton Square, PA: 2017a.
TOZER, A. W. Em busca de Deus: minha alma anseia por ti. São Paulo: Vida, 2016.

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