quarta-feira, 29 de abril de 2020

Amor, Generosidade e Contentamento - A Singularidade da Igreja

Após alguns anos sem publicar 😅, volto a compartilhar algo, parte da conclusão de um ciclo de estudos. Agradeço a Deus pela oportunidade de ter vivido 3 anos de reflexões que tiveram como intenção principal conhecê-lO mais. Minha gratidão também a Débora e as meninas por toda paciência e carinho durante esses anos de dedicação. Espero que o resumo dessas reflexões, que passarei a compartilhar nas próximas postagens, sirvam para edificação de vocês. Deus nos abençoe!



Projetos Eclesiásticos de Amor e Generosidade como Ferramenta para o Contentamento Individual e como Pilar para Comunidades de Fé Cristãs Relevantes - Parte 1


A dificuldade do ser humano em lidar com as diferenças pode ser percebida desde os relatos bíblicos que envolvem a queda do homem até os dias atuais. Essa dificuldade pode ser vista como associada a vícios como a ganância e a inveja que infelizmente norteiam as vidas de grande parte dos indivíduos de nossa sociedade. Dessa forma, tem-se como consequência não uma sociedade que consegue se complementar na diversidade rumo ao contentamento de seus indivíduos, mas sim um verdadeiro “ringue” de competição que alimenta o individualismo e a injustiça. 

Nesse panorama atual surgem fenômenos como as desigualdades sociais, que envolvem cenários onde conjuntos de indivíduos de uma população se diferenciam, principalmente, quanto ao acesso aos recursos que satisfaçam suas necessidades e desejos. Dentro deste cenário de injustiça, geralmente o movimento da ganância conduz tanto os mais abastados a buscarem mais recursos como os menos favorecidos a competirem para conquistar mais, mesmo que ambos os indivíduos já tenham suas reais necessidades supridas. 

O resultado deste embate são as desigualdades aliadas às injustiças sociais, levando a humanidade a um ciclo vicioso de polarização e intolerância. Para piorar o cenário, os ambientes que se propõem a discutir soluções para essa realidade geralmente são baseados em ideologias políticas que demonstram dificuldade em lidar com as diferenças, assim como também são fundamentadas na ganância, no egoísmo e na autonomia do espírito humano.  

A idolatria por trás das propostas baseadas nessas ideologias inviabiliza as transformações necessárias aos indivíduos no sentido de terem suas necessidades supridas a partir da comunhão com Deus, rumo a uma vida em contentamento, se afastando da ganância e do egoísmo e fundamentados no amor. Nesse sentido, o agir do Espírito Santo conduz a uma visão de mundo onde as diferenças passam a ser vistas como oportunidades para a manifestação da generosidade proveniente do amor de Deus tanto individualmente como coletivamente, por meio da Igreja.  

Dessa forma, pode-se perceber a singularidade da Igreja enquanto agente da promoção de um estilo de vida próprio movido pelo Espírito Santo, devendo servir inclusive como referência para toda a sociedade. Através de projetos eclesiásticos que envolvam o dar e o receber, pessoas seriam imersas num contexto de busca pelo contentamento individual, envolvendo reflexões sobre suas reais necessidades e promovendo o compartilhamento voluntário de recursos no sentido da igualdade de contentamento em meio aos diferentes padrões de vida. 

Apesar disso, o que se percebe em grande parte das comunidades de fé cristãs são ambientes onde interpretações equivocadas da bíblia são usadas em conjunto com ideologias políticas para justificarem estilos de vidas conformados aos da sociedade enferma que deveriam estar servindo. Argumentos no sentido da responsabilização do Estado ou da política, ou da priorização e restrição do campo de atuação da Igreja, são usados como pretexto para a manutenção do status quo. 

Com isso, torna-se fundamental uma análise bíblica sobre a importância de projetos eclesiásticos de amor e generosidade como ferramentas tanto para transformações de realidades individuais e coletivas como para promoção da justiça e da igualdade de contentamento para todos, através do agir do Espírito Santo, evidenciando assim a presença da Igreja de Cristo e confirmando sua relevância enquanto agente de transformação.

Não é novidade que vivemos em uma sociedade imediatista e individualista onde as pessoas buscam satisfazer suas necessidades, reais ou não, por meio do consumo desenfreado. Não apenas de produtos e serviços que emergem do mar tecnológico em velocidades cada vez maiores, mas também envolvendo a “produtificação” dos relacionamentos e da própria espiritualidade. 

Infelizmente o resultado dessa realidade é um contexto de polarização em muitos sentidos, onde mesmo as pequenas diferenças individuais são transformadas em grandes embates na “linha de produção” do conflito e da competitividade. Vivemos consciente ou inconscientemente competindo uns com os outros em busca da satisfação dos nossos apetites, custe o que custar, dentro de um contexto conflituoso que nos afasta cada vez mais uns dos outros. 

Nesse cenário, não há lugar para a misericórdia e a generosidade, provenientes do amor, a não ser que estejam de alguma forma contribuindo para a construção de reinos individuais daqueles que aparentemente as exercem. Muitos agora podem construir seus reinos de fama e poder através das redes sociais, por exemplo, buscando o reconhecimento dos outros através de seus personagens virtuais e de suas desenvolturas “admiráveis” num mundo imaginário, mas se afastando dos de carne e osso, ao se afundar no poço da competição por curtidas e seguidores. 

Aliado a isso, o conceito de meritocracia tem sido levado às últimas consequências como “remédio” para a consciência daqueles que justificam suas posturas exageradamente competitivas e consumistas na busca da satisfação de suas necessidades e da felicidade. Por outro lado, alguns se utilizam de práticas assistencialistas para camuflar seus reais interesses econômicos egoístas através de regimes de governo e da política. Com isso, monta-se um cenário onde as ações de generosidade são colocadas sob suspeita por possivelmente terem intenções ilegítimas ou criticadas por estarem aparentemente contribuindo com a preguiça. 

Dessa forma, mesmo concordando sobre a complexidade que envolve o quadro, podemos entender um pouco das causas que levaram ao cenário atual, onde o número de pessoas diagnosticadas como depressivas, assim como a quantidade de casos de suicídios aumentam a cada dia numa sociedade cada vez mais enferma. Nesse cenário, a felicidade é buscada em grande parte através da satisfação dos desejos, que são confundidos muitas vezes como reais necessidades, em meio a uma vida cada dia mais corrida, envolvendo uma visão humanista e individualista que nos afasta da prática do amor, nos distanciando mais e mais de um estilo de vida saudável, em contentamento. 

A bíblia nos apresenta razões pelas quais podemos enxergar projetos de amor e generosidade como fonte de uma espiritualidade emocionalmente e fisicamente saudável, enquanto alvos e participantes da missão de Deus, rumo a uma vida em contentamento. Infelizmente muitos ainda tratam iniciativas dessa natureza como complementares ou até mesmo concorrentes em relação a temas como adoração e o discipulado, prejudicando a qualidade dessas ações, os crescimentos individuais, a relevância coletiva e, consequentemente, o testemunho da comunidade de fé. Além disso, a pouca clareza sobre o vínculo desses projetos com a missão de Deus acaba dificultando o engajamento de voluntários devidamente motivados, gerando cenários de competitividade, vaidade e consumo de “produtos da fé”. 

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