quarta-feira, 8 de julho de 2020

O que é a Igreja diante do Covid-19?


Corona
Nesses dias de isolamento social forçado tenho buscado refletir sobre as causas que nos levaram a sermos surpreendidos pela pandemia covid-19. Nesse contexto, inevitavelmente estão presentes as discussões a respeito do processo de identificação e divulgação sobre o vírus, que, para muitos, caso tivesse sido mais ágil e transparente, poderia ter amenizado seus efeitos.Apesar de concordar sobre a importância dessa discussão, quero aqui enfatizar a impressão de que vivemos um modelo de sociedade altamente vulnerável a esse tipo de ameaça.

Apesar dos avanços científicos e tecnológicos em diversas áreas, estamos tendo que lidar com riscos significativos de colapso social devido a negligência e ganância de muitos. Não foi por falta de previsibilidade quanto ao surgimento de um novo vírus ou por falta de recursos que enfrentamos essa realidade tão dura despreparados. Não querendo ser simplista, entendo que chegamos a esse cenário fundamentalmente devido a escolhas gananciosas e egoístas não apenas das grandes lideranças, mas também das populações que representam, que subordinaram seus Estados aos interesses econômicos dos mais poderosos, mesmo que, em grande parte, como reféns da cultura do consumo e desperdício.


Como cristãos, por analogia, podemos também identificar cenário semelhante no âmbito da perspectiva visível e institucional da igreja. Em meio a tantas previsões bíblicas sobre o que está acontecendo nesses dias, será que realmente acreditamos que iria acontecer? Se sim, nossos estilos de vida, envolvendo nossas rotinas e estruturas eclesiásticas, foram preparados para momentos como esse?  Ou será que fomos realmente surpreendidos como qualquer outro tipo de organização social? Estaríamos conformados? A igreja invisível e católica estaria acorrentada e agora dependente da tecnologia ou de nossos espaços de reuniões coletivas para ser testemunha de seu Cabeça e continuar cumprindo sua missão? Nossos treinamentos envolveram capacitação individual e familiar para respondermos a esse momento como Igreja inabalável?

Acredito que as respostas para essas questões não são triviais e envolveriam boas e longas conversas. Apesar disso, pode-se perceber que há uma questão fundamental que permeia todas essas questões: O que é Igreja? Para alguns talvez a resposta esteja na ponta da língua, no entanto, na prática, o que vemos são evidências, a partir das reações individuais e institucionais nesse momento de pandemia, de que a grande maioria se encontra confusa e sem identidade. Afinal de contas, como ser igreja sem as grandes aglomerações em estádios, sem os shows musicais, sem os grandes avanços evangelísticos, sem as nossas reuniões presenciais ou até mesmo virtuais? O que é igreja hoje para aqueles que não têm acesso aos recursos tecnológicos?


Não quero aqui diminuir a importância das ferramentas, métodos e estruturas que utilizamos na organização de nosso convívio comunitário, tão importantes para a nossa saúde emocional e edificação. Apesar disso, entendo que precisamos refletir sobre a nossa capacidade de nos adaptar a cenários onde não teríamos acesso a esses recursos. Nesse sentido, o nível de dependência que temos de nossa maneira de nos organizar pode então revelar uma relação apenas natural com a igreja, podendo envolver inclusive uma idolatria institucional disfarçada, incompatível com um relacionamento orgânico e espiritual com o Corpo de Cristo.


Estudos sobre esse tema vem sendo desenvolvidos desde o primeiro século da vida da igreja cristã, e até hoje envolve importantes discussões teológicas. Realmente não é o objetivo dessa reflexão desbravar o território da eclesiologia em sua profundidade, mas sim apresentar algumas impressões sobre a aparente crise de identidade ressaltada nesse período tão impactante para a humanidade.
Nesse sentido, podemos lembrar que o termo bíblico igreja está associado inicialmente a palavra hebraica ‘qahal’, relacionada no Velho Testamento ao sentido de assembleia ou congregação de Israel. Provavelmente Jesus utiliza esse termo nas passagens de Mateus, tendo sido registrado pelo grego ‘ekklesia’ devido ao público destinatário da mensagem. Estaria então Jesus sinalizando a inauguração de uma nova estrutura religiosa, mesmo que a partir da ressignificação dos elementos do judaísmo e expandindo o acesso também aos gentios? Surgiria então uma nova proposta de templo, rotinas e comportamentos morais que substituiriam a caduca estrutura religiosa, dando origem ao cristianismo?

Acredito que não, mas sim que mais uma vez Jesus estava usando a linguagem figurada para fazer referência a uma realidade espiritual que pode ser melhor entendida através das cartas de seu interlocutor em Mateus 16:18, o apóstolo Pedro. Em II Pedro 2 podemos encontrar o relato sobre a pedra viva que foi rejeitada pelos homens, mas que diante de Deus é eleita e preciosa, Jesus. Por meio dessa Pedra somos convocados: ‘vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo’.

O apóstolo Pedro traz a revelação sobre para onde apontava toda a estrutura religiosa em torno do povo de Israel. Uma nação chamada por Deus e separada para uma aproximação sacerdotal, em torno de um templo físico, tropeçara na pedra de tropeço, mas, mesmo assim continuou sendo alvo do amor divino. No entanto, chegado o momento de abandonar a estrutura organizacional e as funções temporárias e se entregar à mais perfeita construção de Deus, rejeitaram a pedra angular que também os fez tropeçar.

Por outro lado, os que creem na pedra angular, dentre todas as raças, línguas e nações, são: ‘raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade’. O que crer ‘não será confundido’, e a pedra angular, Jesus Cristo, será um tesouro para ele. Vejo que o apóstolo Pedro estava bem esclarecido sobre a pedra referida por Jesus quando disse ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja’, já que ensina sobre uma realidade de edificação espiritual fundamentada em Cristo, e coloca aqueles que creem, incluindo ele mesmo, como parte desse edifício.

Nesse sentido, podemos encontrar em Hebreus 3 uma referência a Jesus Cristo como apóstolo e Sumo Sacerdote da profissão de fé dos seus discípulos, que seriam as casas ou o ambiente sacerdotal em Cristo. Pode-se entender que a morada de Deus, a casa construída pelo arquiteto de tudo, o próprio Deus, envolve essencialmente uma realidade espiritual interior.

Essa realidade é ensinada também pelo apóstolo Paulo em suas cartas, onde os cristãos seriam santuário de Deus e Corpo de Cristo, Sua Igreja. Com isso, percebe-se que há uma realidade interior comum a todos esses termos usados para revelar nossa vinculação à Deus por meio de Cristo, a Sua presença em nós. Deus habita no interior daqueles que são Igreja de Cristo.

Pode-se entender então que a realidade de ser Igreja tem origem no interior e se manifesta ao exterior através das perspectivas individual, familiar, comunitária e social. Ou seja, alguém alcançado pela Graça de Deus, sendo templo e morada do Espírito Santo, é Igreja em qualquer perspectiva. Sei que esse pensamento pode ser confundido com o apregoado por aqueles que desprezam o congregar, no entanto, quando bem entendido, acredito que serve para fortalecer nossas expressões coletivas da Igreja de Cristo.

Sobre a perspectiva individual da manifestação da Igreja, pode-se imaginar o templo interior construído em Cristo como um “lugar” de comunhão com Deus onde podemos nos encontrar espiritualmente como membros de Seu Corpo. Imagine então uma adoração em Espírito e em Verdade, envolvendo a consciência da Presença do Criador, de uma pessoa no Brasil dentro de seu quarto no mesmo momento que outra pessoa também O adora na África dentro de uma prisão. Essas pessoas estão expressando a Igreja, mesmo que separadas fisicamente e a sós, porque são a Igreja. São Igreja porque congregam na Presença de Deus em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo.

O que quero então ressaltar antes de comentar sobre qualquer outra perspectiva da expressão da Igreja é que esse período de pandemia, envolvendo o isolamento social, não tem a mínima capacidade de impactar a Igreja. A verdadeira Igreja continua sua obra aqui na terra em meio às nossas limitações humanas e de mobilidade. A Palavra de Deus continua a ser propagada através de Sua Igreja inabalável que se reúne em Sua Presença.

Adentrando nas expressões coletivas da Igreja, considero a família como o lugar do primeiro nível de manifestação dessa realidade quando há mais de uma nova criatura envolvida. Quando, no mínimo, duas expressões individuais da Igreja estão juntas fisicamente algo diferente acontece certamente. Surge então um contexto propício para a manifestação prática do amor, da generosidade, da justiça e da paz. Esposo e esposa, por exemplo, passam a expressar a relação de íntima unidade de Cristo e Sua Noiva. Filhos obedecem a seus pais, não mais por obrigação, mas porque encontraram referência em Cristo, exemplo de submissão ao Pai. Quando dois ou mais se reúnem na Presença de Deus, em nome de Jesus Cristo, ali se manifesta a Igreja.

Infelizmente muitos dos que frequentavam as igrejas cristãs foram gravemente impactados pelo isolamento forçado decorrente da pandemia do covid-19. Muitos líderes também demonstram muita preocupação com aqueles que simplesmente “desapareceram”, e assim aparentemente buscam ansiosamente o retorno das atividades presenciais. Alguns, desde o início da pandemia, foram bem incisivos nas redes sociais, se envolvendo em embates em nome da defesa da igreja e reivindicando o direito de retomar suas reuniões. Em meio a isso, críticas e piadas envolvendo as estruturas denominacionais, por aparentemente não estarem tendo poder sobre o covid-19, foram publicadas aos montes também nas redes sociais, impactando em cheio muitos cenários da denominada cristandade.


Acredito que, em muitos casos, as preocupações dessas lideranças sejam legitimas e sinceras, no entanto, não confundamos o atendimento de nossas necessidades naturais de convívio social, muitas vezes buscado através do reconhecimento vaidoso dos outros, com a realidade espiritual que independe disso. Novamente, não quero diminuir, por exemplo, a importância do ensino, louvor e evangelismo coletivos, no entanto, surge naturalmente em mim a impressão de que algo trouxe uma dependência institucional e funcional que coloca a realidade espiritual da Igreja em segundo plano, ou até mesmo comprova sua inexistência na vida de muitos. Por outro lado, as críticas daqueles que não têm qualquer envolvimento com a Igreja, mesmo que não baseadas em boas intenções, podem servir como reflexão sobre o testemunho real da igreja institucional.

Diante disso, podemos então nos perguntar: será que nosso desejo de voltar às nossas rotinas eclesiásticas são realmente porque entendemos a importância desse ajuntamento como mais uma expressão daquilo que também vivemos individualmente e familiarmente, ou estamos na verdade querendo voltar aos nossos disfarces e rotas de fuga? Será que a nossa ansiedade em voltar envolve o desejo de estarmos realmente mais perto daqueles com quem devemos partilhar o que temos? Acredito que vivemos um momento de aprendizado em muitas áreas, incluindo sobre o que é ser Igreja. E nessa escola, tenho a impressão de que ser Igreja envolve viver essa realidade espiritual independente de nossas limitações materiais e provisórias. É não criar escapes para os processos que Deus tem para nós, incluindo nossos desafios individuais e familiares, e realmente permanecer continuamente na Casa de Deus.


Dessa forma, desejo sim que estejamos juntos fisicamente muito em breve, e confesso que sou muito edificado por esses momentos. Além disso, estar entre amigos e familiares traz renovo e aumenta nossa sensação de utilidade, promovendo nossa saúde física e emocional. No entanto, peço a Deus que realize tudo o que for preciso em nós durante esse período de afastamento, envolvendo as capacitações necessárias para que os nossos ajuntamentos sirvam como expressão da Igreja, nos preparando para o grande encontro. Que esse retorno seja cheio de harmonia e paz, envolvendo uma consciência que a Igreja nunca deixou de ser aquilo que Jesus falou a seu respeito: “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Que sejamos conhecidos pelo Amor, Unidade e Serviço, e que, como as virgens prudentes de Mateus 25, sejamos encontrados cheios do Espírito Santo, não importa o lugar!

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