Nesses dias de isolamento social
forçado tenho buscado refletir sobre as causas que nos levaram a sermos
surpreendidos pela pandemia covid-19. Nesse contexto, inevitavelmente estão
presentes as discussões a respeito do processo de identificação e divulgação sobre
o vírus, que, para muitos, caso tivesse sido mais ágil e transparente, poderia
ter amenizado seus efeitos.Apesar de concordar sobre a importância dessa
discussão, quero aqui enfatizar a impressão de que vivemos um modelo de
sociedade altamente vulnerável a esse tipo de ameaça.
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos em diversas áreas, estamos tendo que lidar com riscos significativos de colapso social devido a negligência e ganância de muitos. Não foi por falta de previsibilidade quanto ao surgimento de um novo vírus ou por falta de recursos que enfrentamos essa realidade tão dura despreparados. Não querendo ser simplista, entendo que chegamos a esse cenário fundamentalmente devido a escolhas gananciosas e egoístas não apenas das grandes lideranças, mas também das populações que representam, que subordinaram seus Estados aos interesses econômicos dos mais poderosos, mesmo que, em grande parte, como reféns da cultura do consumo e desperdício.
Apesar dos avanços científicos e tecnológicos em diversas áreas, estamos tendo que lidar com riscos significativos de colapso social devido a negligência e ganância de muitos. Não foi por falta de previsibilidade quanto ao surgimento de um novo vírus ou por falta de recursos que enfrentamos essa realidade tão dura despreparados. Não querendo ser simplista, entendo que chegamos a esse cenário fundamentalmente devido a escolhas gananciosas e egoístas não apenas das grandes lideranças, mas também das populações que representam, que subordinaram seus Estados aos interesses econômicos dos mais poderosos, mesmo que, em grande parte, como reféns da cultura do consumo e desperdício.
Como cristãos, por analogia, podemos
também identificar cenário semelhante no âmbito da perspectiva visível e
institucional da igreja. Em meio a tantas previsões bíblicas sobre o que está
acontecendo nesses dias, será que realmente acreditamos que iria acontecer? Se
sim, nossos estilos de vida, envolvendo nossas rotinas e estruturas
eclesiásticas, foram preparados para momentos como esse? Ou será que fomos realmente surpreendidos como
qualquer outro tipo de organização social? Estaríamos conformados? A igreja
invisível e católica estaria acorrentada e agora dependente da tecnologia ou de
nossos espaços de reuniões coletivas para ser testemunha de seu Cabeça e
continuar cumprindo sua missão? Nossos treinamentos envolveram capacitação individual
e familiar para respondermos a esse momento como Igreja inabalável?
Acredito que as respostas para
essas questões não são triviais e envolveriam boas e longas conversas. Apesar
disso, pode-se perceber que há uma questão fundamental que permeia todas essas
questões: O que é Igreja? Para alguns talvez a resposta esteja na ponta da
língua, no entanto, na prática, o que vemos são evidências, a partir das
reações individuais e institucionais nesse momento de pandemia, de que a grande
maioria se encontra confusa e sem identidade. Afinal de contas, como ser igreja
sem as grandes aglomerações em estádios, sem os shows musicais, sem os grandes
avanços evangelísticos, sem as nossas reuniões presenciais ou até mesmo virtuais?
O que é igreja hoje para aqueles que não têm acesso aos recursos tecnológicos?
Não quero aqui diminuir a
importância das ferramentas, métodos e estruturas que utilizamos na organização
de nosso convívio comunitário, tão importantes para a nossa saúde emocional e edificação. Apesar disso, entendo que precisamos refletir sobre a nossa
capacidade de nos adaptar a cenários onde não teríamos acesso a esses recursos.
Nesse sentido, o nível de dependência que temos de nossa maneira de nos
organizar pode então revelar uma relação apenas natural com a igreja, podendo
envolver inclusive uma idolatria institucional disfarçada, incompatível com um
relacionamento orgânico e espiritual com o Corpo de Cristo.
Estudos sobre esse tema vem sendo
desenvolvidos desde o primeiro século da vida da igreja cristã, e até hoje envolve
importantes discussões teológicas. Realmente não é o objetivo dessa reflexão desbravar
o território da eclesiologia em sua profundidade, mas sim apresentar algumas
impressões sobre a aparente crise de identidade ressaltada nesse período tão
impactante para a humanidade.
Nesse sentido, podemos lembrar
que o termo bíblico igreja está associado inicialmente a palavra hebraica ‘qahal’,
relacionada no Velho Testamento ao sentido de assembleia ou congregação de
Israel. Provavelmente Jesus utiliza esse termo nas passagens de Mateus, tendo
sido registrado pelo grego ‘ekklesia’ devido ao público destinatário da
mensagem. Estaria então Jesus sinalizando a inauguração de uma nova estrutura
religiosa, mesmo que a partir da ressignificação dos elementos do judaísmo e expandindo
o acesso também aos gentios? Surgiria então uma nova proposta de templo,
rotinas e comportamentos morais que substituiriam a caduca estrutura religiosa,
dando origem ao cristianismo?
Acredito que não, mas sim que
mais uma vez Jesus estava usando a linguagem figurada para fazer referência a
uma realidade espiritual que pode ser melhor entendida através das cartas de
seu interlocutor em Mateus 16:18, o apóstolo Pedro. Em II Pedro 2 podemos
encontrar o relato sobre a pedra viva que foi rejeitada pelos homens, mas que
diante de Deus é eleita e preciosa, Jesus. Por meio dessa Pedra somos convocados:
‘vós, como pedras vivas, prestai-vos à construção de um edifício espiritual, a
fim de oferecerdes sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por Jesus Cristo’.
O apóstolo Pedro traz a revelação
sobre para onde apontava toda a estrutura religiosa em torno do povo de Israel.
Uma nação chamada por Deus e separada para uma aproximação sacerdotal, em torno
de um templo físico, tropeçara na pedra de tropeço, mas, mesmo assim continuou
sendo alvo do amor divino. No entanto, chegado o momento de abandonar a
estrutura organizacional e as funções temporárias e se entregar à mais perfeita
construção de Deus, rejeitaram a pedra angular que também os fez tropeçar.
Por outro lado, os que creem na pedra
angular, dentre todas as raças, línguas e nações, são: ‘raça eleita, um
sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade’. O que
crer ‘não será confundido’, e a pedra angular, Jesus Cristo, será um tesouro
para ele. Vejo que o apóstolo Pedro estava bem esclarecido sobre a pedra referida
por Jesus quando disse ‘sobre esta pedra edificarei a minha igreja’, já que
ensina sobre uma realidade de edificação espiritual fundamentada em Cristo, e
coloca aqueles que creem, incluindo ele mesmo, como parte desse edifício.
Nesse sentido, podemos encontrar em
Hebreus 3 uma referência a Jesus Cristo como apóstolo e Sumo Sacerdote da
profissão de fé dos seus discípulos, que seriam as casas ou o ambiente
sacerdotal em Cristo. Pode-se entender que a morada de Deus, a casa construída
pelo arquiteto de tudo, o próprio Deus, envolve essencialmente uma realidade
espiritual interior.
Essa realidade é ensinada também
pelo apóstolo Paulo em suas cartas, onde os cristãos seriam santuário de Deus e
Corpo de Cristo, Sua Igreja. Com isso, percebe-se que há uma realidade interior
comum a todos esses termos usados para revelar nossa vinculação à Deus por meio
de Cristo, a Sua presença em nós. Deus habita no interior daqueles que são Igreja
de Cristo.
Pode-se entender então que a
realidade de ser Igreja tem origem no interior e se manifesta ao exterior
através das perspectivas individual, familiar, comunitária e social. Ou seja,
alguém alcançado pela Graça de Deus, sendo templo e morada do Espírito Santo, é
Igreja em qualquer perspectiva. Sei que esse pensamento pode ser confundido com
o apregoado por aqueles que desprezam o congregar, no entanto, quando bem
entendido, acredito que serve para fortalecer nossas expressões coletivas da
Igreja de Cristo.
Sobre a perspectiva individual da
manifestação da Igreja, pode-se imaginar o templo interior construído em Cristo
como um “lugar” de comunhão com Deus onde podemos nos encontrar espiritualmente
como membros de Seu Corpo. Imagine então uma adoração em Espírito e em Verdade,
envolvendo a consciência da Presença do Criador, de uma pessoa no Brasil dentro
de seu quarto no mesmo momento que outra pessoa também O adora na África dentro
de uma prisão. Essas pessoas estão expressando a Igreja, mesmo que separadas
fisicamente e a sós, porque são a Igreja. São Igreja porque congregam na
Presença de Deus em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo.
O que quero então ressaltar antes
de comentar sobre qualquer outra perspectiva da expressão da Igreja é que esse
período de pandemia, envolvendo o isolamento social, não tem a mínima
capacidade de impactar a Igreja. A verdadeira Igreja continua sua obra aqui na
terra em meio às nossas limitações humanas e de mobilidade. A Palavra de Deus
continua a ser propagada através de Sua Igreja inabalável que se reúne em Sua
Presença.
Adentrando nas expressões
coletivas da Igreja, considero a família como o lugar do primeiro nível de
manifestação dessa realidade quando há mais de uma nova criatura envolvida. Quando,
no mínimo, duas expressões individuais da Igreja estão juntas fisicamente algo diferente
acontece certamente. Surge então um contexto propício para a manifestação prática
do amor, da generosidade, da justiça e da paz. Esposo e esposa, por exemplo, passam
a expressar a relação de íntima unidade de Cristo e Sua Noiva. Filhos obedecem
a seus pais, não mais por obrigação, mas porque encontraram referência em
Cristo, exemplo de submissão ao Pai. Quando dois ou mais se reúnem na Presença
de Deus, em nome de Jesus Cristo, ali se manifesta a Igreja.
Infelizmente muitos dos que
frequentavam as igrejas cristãs foram gravemente impactados pelo isolamento
forçado decorrente da pandemia do covid-19. Muitos líderes também demonstram
muita preocupação com aqueles que simplesmente “desapareceram”, e assim
aparentemente buscam ansiosamente o retorno das atividades presenciais. Alguns,
desde o início da pandemia, foram bem incisivos nas redes sociais, se
envolvendo em embates em nome da defesa da igreja e reivindicando o direito de
retomar suas reuniões. Em meio a isso, críticas e piadas envolvendo as
estruturas denominacionais, por aparentemente não estarem tendo poder sobre o covid-19,
foram publicadas aos montes também nas redes sociais, impactando em cheio muitos
cenários da denominada cristandade.
Acredito que, em muitos casos, as
preocupações dessas lideranças sejam legitimas e sinceras, no entanto, não confundamos
o atendimento de nossas necessidades naturais de convívio social, muitas vezes
buscado através do reconhecimento vaidoso dos outros, com a realidade
espiritual que independe disso. Novamente, não quero diminuir, por exemplo, a
importância do ensino, louvor e evangelismo coletivos, no entanto, surge naturalmente
em mim a impressão de que algo trouxe uma dependência institucional e funcional
que coloca a realidade espiritual da Igreja em segundo plano, ou até mesmo
comprova sua inexistência na vida de muitos. Por outro lado, as críticas
daqueles que não têm qualquer envolvimento com a Igreja, mesmo que não baseadas
em boas intenções, podem servir como reflexão sobre o testemunho real da igreja
institucional.
Diante disso, podemos então nos perguntar: será
que nosso desejo de voltar às nossas rotinas eclesiásticas são realmente porque
entendemos a importância desse ajuntamento como mais uma expressão daquilo que
também vivemos individualmente e familiarmente, ou estamos na verdade querendo
voltar aos nossos disfarces e rotas de fuga? Será que a nossa ansiedade em
voltar envolve o desejo de estarmos realmente mais perto daqueles com quem
devemos partilhar o que temos? Acredito que vivemos um momento de aprendizado
em muitas áreas, incluindo sobre o que é ser Igreja. E nessa escola, tenho a
impressão de que ser Igreja envolve viver essa realidade espiritual
independente de nossas limitações materiais e provisórias. É não criar escapes
para os processos que Deus tem para nós, incluindo nossos desafios individuais
e familiares, e realmente permanecer continuamente na Casa de Deus.
Dessa forma, desejo sim que
estejamos juntos fisicamente muito em breve, e confesso que sou muito edificado
por esses momentos. Além disso, estar entre amigos e familiares traz renovo e aumenta
nossa sensação de utilidade, promovendo nossa saúde física e emocional. No
entanto, peço a Deus que realize tudo o que for preciso em nós durante esse
período de afastamento, envolvendo as capacitações necessárias para que os
nossos ajuntamentos sirvam como expressão da Igreja, nos preparando para o
grande encontro. Que esse retorno seja cheio de harmonia e paz, envolvendo uma
consciência que a Igreja nunca deixou de ser aquilo que Jesus falou a seu
respeito: “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Que sejamos
conhecidos pelo Amor, Unidade e Serviço, e que, como as virgens prudentes de
Mateus 25, sejamos encontrados cheios do Espírito Santo, não importa o lugar!

Amém!
ResponderExcluirValeu Diogão!
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